Escreva para
Marcio Poletto





Mistérios da XV de Novembro, ilustrado por
Daniel Bueno , o novo livro de Marcio, pela editora Prumo


O Agulhas Negras foi palco para um grupo de garotos que buscavam novas experiências em suas vidas. Descobriram, nas trilhas e montanhas de Itatiaia, que as emoções fluíam no ar, bem ao alcance das mãos. Buscaram desafios e encontraram liberdade e grandes amizades. Com muito humor e uma irreverência típica dos jovens, viveram em Itatiaia uma época inesquecível, que mudou para sempre suas vidas. Do alto do Agulhas, a 2.787 metros de altitude, sob baixíssimas temperaturas, puderam sentir a força da natureza e o prazer da conquista. Agulhas fez suas vidas diferentes, cheia de boas lembranças e sentimentos. Assim, os garotos se apaixonaram pelo Agulhas Negras, para sempre. O livro convida o leitor a se aventurar ao lado de irreverentes e divertidos garotos.

Agulhas, uma aventura nas montanhas de Itatiaia - Romance Juvenil, Editora Asaventura, 1996, 104 páginas.

O Agulhas recebeu importante crítica do consagrado escritor Marcos Rey, em carta recebida em Nov/98 e foi por ele apresentado às grandes editoras do mercado editorial.

"Caro Márcio - Gostei do Agulhas, você tem um estilo ágil, vibrante, espontâneo. Acho que tem a pinta de um bom autor juvenil. Um abraço do Marcos Rey"


Leia alguns trechos do livro...



                          AGULHAS
           uma aventura nas montanhas de Itatiaia          

                                                            

               1 - Uma Professor Alpinista                
                                                            
                                                            
  Como o vôo de um trapezista, o jovem rapaz moreno,de vasto
sorriso,  forte como um lutador, lançou-se no balanço e voou
feito  gaivota.  Fez  rasante  quase tocando o chão e depois
subiu,  passou  o  primeiro  tronco horizontal, o segundo, o
terceiro,  exigiu  de todos um leve movimento da cabeça para
que  seguíssemos  sua  trajetória e, já a mais de dez metros
de  altura,  num  salto  mortal  ficou  em pé sobre o quarto
tronco.                                                     
  Houve um momento de expectativa.Todos olharam orgulhosos e
o aplaudiram  em  meio a assovios e urras. Em gestos tirados
do circo, agradeceu, abriu seu majestoso sorriso e novamente
soltou-se num mesmo embalo para a viagem de volta. O balanço
veio  como pedra despencada de cachoeira, fez novo rasante e
traçou   um  arco  de  cento  e  oitenta  graus.  Pousou  na
extremidade  oposta,  perto  de  onde  estávamos,  a  alguns
metros, suavemente.                                         
  O famoso balanço da casa do Sr. Jorge estava ali para quem
quisesse  desafiá-lo.  Muitos tentavam grandes façanhas, mas
só  alguns  conseguiam  as  maiores glórias e honrarias. Uma
enorme árvore sustentava o balanço, que prendia-se num galho
alto  e  comprido  que  suportava  a única e grossa corda de
aproximadamente  dez  metros,  que  em  sua extremidade mais
baixa,  prendia  uma  estreita  tabua  que  servia  para  os
trapezistas  sentarem  ou  firmarem  seus  pes. Um buraco de
vinte   metros  de  diâmetro,  cavado  embaixo  do  balanço,
funcionava  como  uma  abóbada invertida e o balanço passava
velozmente  rente  ao chão, em boa parte de seu percurso. No
outro  extremo,  troncos  de  média espessura eram colocados
paralelos  e  horizontais,  onde os trapezistas estacionavam
seus pés pés ao final da trajetória.                        
  A sensação era de que os trapezistas saltavam para o nada,
mas  lá  estavam  os  troncos horizontais onde os incógnitos
heróis estacionavam com valentia.                          

................

  A  força  das alturas, o ar mais rarefeito, puro e gelado,
dificultavam  minha  respiração.  Devíamos  estar  a mais de
1.200   metros.   Alguns   sítios  à  nossa  esquerda  ainda
apareciam,  mas já bastante dispersos. A mata foi fechando e
escurecendo  a  trilha,  fazendo-se  necessário,  em  alguns
momentos, do uso da pequena lanterna que emitia boa luz.    
  Quando  Júlio  apagava  a  lanterna,  a  vista escurecia e
ficávamos   alguns   segundos  às  cegas,  até  acostumarmos
novamente com a escuridão.                                  
  Muitos  sons  de  água  corrente  eram  ouvidos ao lado da
trilha,  quase sempre invisíveis a nossos olhos. O ritmo das
passadas  era o mesmo de quando iniciamos e já começava a me
sentir  cansado. As subidas iam aparecendo uma após a outra,
e outra,  e  outra.  Cada reta tinha aproximadamente uns cem
metros  e,  ao final, uma curva. Depois novamente outra reta
de uns cem metros em subida.                                
  O desespero tentava tomar conta de mim a cada nova reta em
subida que surgia. Procurava não pensar para não desanimar. 
  O  "pensar em nada" era impossível.Meus pensamentos quando
vagavam sempre encontravam Marcinha,musa dos cabelos negros,
corpo  e  olhos  pequenos,  de lindos pensamentos e caloroso
coração.  Conheci-a  numa  festa logo após recente separação
de  outra  namorada.  Estava  sentado com uma amiga contando
minhas  desavenças  quando  meu  olhar  foi magnetizado pela
imagem  de Marcinha que entrava correndo pela porta do salão
de  festas,  segurando  seu  vestido longo, fugindo da chuva
que  caía  incessante.  Por  um  breve instante vislumbrei a
perfeição,  a  realização  de  meus sonhos, o amor. Ela veio
em  nossa  direção  pois  conhecia a garota que estava a meu
lado:                                                       
  - Você é de verdade? - perguntei a Marcinha.              
  - Será  que sou apenas um sonho? Aperta a minha mão. Veja,
eu sou de verdade, sim.                                     
  Segurei  sua  mão e senti o calor percorrer meu corpo. Nos
conhecemos  e  nos  aproximamos numa identificação que pouco
experimentei  em  minha  vida.  Mas foram poucos os momentos
com  Marcinha,pois  alguns  meses  depois de nos conhecermos
ela  mudou  da  escola,  de  sua casa, e sumiu, não deixando
nenhuma  pista.  Envolto  em  pensamentos  e  esperanças  de
voltar  e  revê-la,  caminhava  e  esquecia das dificuldades
da trilha e das intermináveis subidas.                      
  Já  respirava  com  a boca aberta quando, em meio a muitas
árvores,  surgiu  uma  outra  trilha,  mais  estreita. Júlio
embrenhou-se nela. Para nosso alívio, uma enorme descida.   
  O  corpo  se  tornara  leve,  os  pés pareciam estar sendo
massageados.  Deixei-me  embalar pelo peso do corpo, parecia
flutuar  e  rapidamente  chegamos  ao final da descida. Mais
alguns  passos e surgiu o abrigo Macieiras, uma forte emoção
nos invadiu:                                                
  - Mas que bela choupana! - proclamou Dimas.               
  - Até que enfim chegamos. Foi uma eternidade.             
  Sentei  na  entrada  do  abrigo,  num degrau empoeirado da
escada.  O  abrigo  Macieiras  era  uma  pequena  cabana  de
madeira  com  varanda. A porta estava meio arrancada e pensa
para  o  lado  direito,  parecia bem arrebentado, mas era um
lugar  aconchegante  e  sereno.  Dentro  dele  pudemos ver o
quanto  estava  destruído  e  fomos  tomados  por uma enorme
tristeza.                                                   

...............

                 14 - Adentrando na Floresta                
                                                            
                                                            
  Uma  ajuda  foi  necessária para ajeitar minha mochila nas
costas,  e  da  mesma forma ajudei Jonas. A sensação do peso
parecia  maior.  Haveríamos  de  andar  algum tempo para nos
acostumarmos  de  novo  com  aquela  incômoda mochila. Todos
estavam a postos. Partimos rumo ao abrigo Macieiras.        
  Desfilamos  por  sobre a ponte passando pelos turistas que
nos  fitavam em silêncio. Uma jovem mamãe, loira e atraente,
tirou  seus  óculos escuros e me fitou por alguns encantados
segundos.                                                   
  A  estrada  seria  só  nossa,  seus  elegantes  carros não
serviriam  para  nada. Só restaria àqueles turistas apreciar
o Rio  Campo  Belo, entrar em seus automóveis e voltarem aos
hotéis, passivamente.                                       
  Novamente  como  no  ano anterior, cruzamos com a corrente
que  limita a passagem de veículos. A civilização, agora era
algo distante. Em um novo mundo adentrávamos:               
  - A partir daqui  só passam andarilhos e jipes do parque -
Apesar da placa indicativa da proibição, senti vontade de um
comentário pois era um momento importante.                  
  As subidas começaram a aparecer,eternas, uma após a outra,
separadas   por  retas  de  mais  ou  menos  cem  metros.  A
dificuldade era bem maior pois as mochilas pesavam bastante.
A velocidade,  já  bastante  reduzida pelo cansaço, diminuía
ainda  mais  com o desânimo ao se descobrir uma nova subida,
zigue-zague  de  retas  e  curvas.  O  céu  era  de  um azul
brilhante,  sem nenhuma nuvem a manchá-lo. A altura já podia
ser  sentida.  Íamos  a  mais  de  mil e duzentos metros e a
trilha  parecia  bem  diferente  do  que  à  noite, alegre e
barulhenta.                                                 
  A  floresta,  interminável  e  densa,  povoada por enormes
cedros,   paineiras,jequitibás,   sapucaias,   adornada  por
majestosas  samambaias  e belos pinheiros, e não parecia ser
possível  que  próximo  dali,  no  Planalto, toda esta vasta
flora  desaparecesse  sendo  substituída  por  campos altos,
pequenos  e  retorcidos  arbustos  e  flores  exóticas  como
orquídeas   terrestres,   quaresmeiras,   lírios   e  outras
infindáveis espécies de famílias. Onde estávamos, a floresta
abundante comandava a paisagem, alta e bem fechada. Escondia
também  sua  rica  fauna  de  aves  e  mamíferos desde onças
pintadas  até  antas.  Em meio a toda aquela riqueza de vida
nós também, por um breve tempo, faríamos parte.             
  A  trilha  continuava  a  subir  e  o suor caía em grandes
quantidades  por  todo  meu  corpo.  Já andávamos há mais de
meia  hora quando resolvemos dar uma parada, meia hora era o
máximo que conseguíamos andar sem interrupção:              
  - Que horas são? - Jonas me perguntou.                    
  - Dez pra meio-dia.                                       
  - Nossa, o sol está a pino, estou derretendo.             
  Com  medo  do  famoso frio das alturas, estávamos vestidos
com  camisas  de flanela, apesar do calor. A camisa protegia
melhor  os  ombros  contra  as  alças  da mochila. Júlio, da
outra   vez   que  caminhamos,  nos  recomendou  que  quando
andássemos pelo mato, usássemos camisas de mangas compridas,
por  causa  de  estranhas  folhas e insetos que pudessem vir
roçar  nossa  pele. Ainda não estávamos em mato fechado, mas
logo poderíamos encontrar tal situação.                     
  Deitados   ou   sentados,  nos  espalhamos  pela  estreita
estrada,  e  desfrutamos  do  som  da  floresta, solitária e
enigmática  mesmo  durante  o  dia.  Um sopro forte de vento
arrepiou-me,  penetrando  na roupa molhada de suor. Da ponte
do  Maromba  até o Macieiras são nove quilômetros. Estávamos
distantes  ainda  seis quilômetros, e portanto haveríamos de
chegar no abrigo por volta das quatro da tarde.             

..............

  O   Agulhas  estava  inteiro  à  nossa  frente,  enorme  e
assustador,  de  um  cinza claro azulado. De onde estávamos,
em  sua  base,  não  dava  mais  para ver o topo e a cruz. O
Agulhas  já  não  era  um  ser  distante,  uma imagem, agora
fazíamos  parte  dele,  estávamos  dentro  dele. Juliano nos
indicou  a  pedra  da  Coroa,  mas  não  consegui distinguir
direito. Estava bem acima de nossas cabeças.                
  Iniciamos a subida, íngreme e cansativa. O fôlego não dava
para  muitos  passos, mas tinha que acompanhar meu grupo que
mantinha  forte  ritmo  puxado por Juliano. Ganso vinha logo
atrás  de  mim  e  me  pressionava para que não diminuísse a
marcha.  Enormes  pedras começaram a aparecer e a dificultar
ainda  mais  a subida. Já surgiam lances que necessitavam do
auxílio das mãos.                                           
                                                            
                                                            
  A  pedra  da Coroa era exatamente como uma Coroa, circular
e com  várias  pontas  apontadas para o céu. Alguns cariocas
sentaram  entre  as  pontas  da  coroa,  como  num cavalo, e
ficaram lá gritando e gesticulando. Estávamos bem alto.     
  De  lá  era  possível avistar o Prateleiras quase na mesma
altura  e,  bem  distante  e  pequeno,  o  abrigo  Rebouças.
Descansamos uns quinze minutos.                             
  Fazia  muito  frio  provocado  principalmente  por  ventos
bastante velozes que vinham da base da montanha e subiam.   
  Perfuravam qualquer tipo de roupa e gelavam e petrificavam
as  mãos  e  o  rosto.  Quase não consegui acender o cigarro
tendo  que  colocá-lo  dentro da jaqueta para poder manter a
chama do isqueiro.                                          
  Minha  roupa era justa, mas o jeans parecia bem maleável e
não  dava sinais de que se rasgaria. Havia amarrado o cantil
pelo passador do cinto e podia caminhar com as mãos livres. 
  Muitas pedras encaixadas umas nas outras marcaram o início
da escalada. Entrávamos pela calha, escura e gelada. O vento
que  parecia  forte  no  início da subida agora mostrava sua
força  total  pois  era  canalizado para dentro da calha com
impetuosidade.  Tínhamos  que usar as duas mãos e dobrar bem
as pernas nos lances que se sucediam. Íamos pelo lado mais à
direita da montanha na direção da cruz, por dentro da calha.
Seguiríamos  por  ela  em mais de cem metros. Alguns abismos
surgiam à minha direita onde não se via o seu final.        
  Uma sequência de pequenos lances, entre pedras em forma de
abóbada,   pequenas  chaminés  e  calhas,  foram  facilmente
vencidas.  Pude  ver  Jonas  adiante,  caminhando  por sobre
várias   pedras   consecutivas   com  extremo  equilíbrio  e
agilidade. O mesmo não ocorria comigo que precisava de maior
concentração  e  morosidade  para  não  me desequilibrar. Eu
seguia bem atrás de Juliano e fazia tudo exatamente igual.  
  Constantemente  falava para experimentar onde pisássemos e
sentir   a   aderência   da  pedra.  Pequenos  abismos  eram
constantes, cinco metros, buracos escuros barrancos de dez e
quinze  metros  bem  abaixo  ou ao lado de nós. Ainda estava
nervoso  e  apreensivo.  Sempre  procurava  pisar firme e em
lances mais difíceis colava o corpo na pedra.               
  Subimos algumas calhas de uns dois metros sem o auxílio de
corda,  apenas  com apoio do corpo. Fica-se de costas para a
rocha  e  senta-se  na  calha com as pernas cruzadas em "X",
sempre  fazendo  pressão  nas  paredes da calha. As mãos e a
flexão  das  pernas  fazem  o movimento, e em pouco tempo, a
calha era vencida com segurança.                            
                                                            
                                                            
  O   avestruz,  num  lance  isolado,  relativamente  fácil,
apavorado,   tentava   recuperar  a  tampa  de  sua  máquina
fotográfica.  Revelou ali porque tentou nos amedrontar tanto
durante a trilha. Ele não tinha muito controle e eu precisei
acalmá-lo naquele momento. Engatinhei até a beirada da rocha
e apanhei a tampa de sua máquina.Ele, sem dizer nada, seguiu
assustado atrás de seu grupo.                               
                                                            
                                                            
  Duas  enormes  pedras, altas e bem próximas, formavam duas
paredes  paralelas,  uma  chaminé  com mais de dez metros. A
passagem  correta  era  na  base  das pedras, por baixo, mas
Borges  se  exibia  passando  por  cima  de  nossas cabeças,
transpondo  o  lance  como numa chaminé. Fiquei a observá-lo
para  ver  como ele, astutamente, executava os movimentos na
chaminé.  Sabia  que  teria que enfrentar uma bem difícil no
final   da   escalada   e   tinha  que  aprender  a  técnica
rapidamente.  O  rapaz  era  bom   e bastante exibicionista.
Juliano deu-lhe uma tremenda bronca e pediu que descesse.   
  - Borges,  não  precisa  se exibir, nós sabemos que você é
bom. Cuida do teu grupo e desce daí!                        
  Borges  estava  só  de  camiseta e fazia muito frio. O sol
escondia-se  por  trás  das rochas e tornava o ambiente mais
sombrio e gelado.Achei ótima a bronca de Juliano que impunha
uma liderança "civil" à expedição.                          

.................

                 19 - A Conquista do Agulhas                
                                                            
                                                            
  Dali não  havia volta, a chaminé tinha que ser transposta.
A  rampa, até  a  rocha do livro, era íngreme e estreita, de
mais  ou  menos  um  metro  e  meio de largura. À direita da
rampa,  um  imenso  abismo  sem  fim  à nossas vistas e, uma
forte  ventania  para  atrapalhar ainda mais. Ventania era o
que  não  faltava  àquela escalada. A rampa parecia um lance
fácil mas o local era perigoso.                             
  Muitos  arbustos pequenos faziam parte da rampa. Os grupos
à nossa  frente subiam pela rampa, e pudemos ver que não era
tão  simples como parecia. Algumas pessoas sofreram pequenos
escorregões, o que causou um certo alvoroço.                
  Os líderes procuravam acalmar os montanhistas e orientavam
para  que  firmassem  bem  os  pés  à cada lance antes de se
movimentarem. Ficamos esperando os dois grupos subirem, pois
a base  da  chaminé,  ao final da rampa, não suportava muita
gente. Era estreita e teríamos que esperar algum tempo ali. 
  Sentei  e  fiquei  a  olhar  a paisagem. Ao lado da rampa,
enormes  blocos  de  rocha  flutuavam,  ou pareciam flutuar,
já  que não era possível avistar onde se apoiavam. Não havia
ligação  entre  o  local que estávamos e essas rochas. O vão
entre os dois lances era de infinita sensação.              
                                                            
                                                            
  O  camping  tinha poucas barracas e formava enormes vazios
em  sua  área.  O  Prateleiras  parecia  um brinquedo de tão
pequeno.   Devíamos   estar   bem  distantes,  talvez  cinco
quilômetros.                                                
                                                            
                                                            
  Já  era  possível  avistar alguns  montanhistas no topo do
Agulhas  quando  iniciamos  a subida da rampa. Juliano pedia
atenção.  O  abismo,  à  tinha  direita,  era de assustar, e
cuidadosamente  subia,  me  agarrando  a arbustos e cravando
os dedos em pequenas ranhuras, que era do que dispunhamos.  
  Achei que o lance merecia uma cordada de segurança,mas não
foi  o  que  ocorreu. Após dois pequenos escorregões cheguei
ao final da rampa e pude ver a chaminé que teria que subir. 
  Não  havia  perigo aparente pois o lance era feito com uma
cordada  de  segurança.  O que causava essa sensação de medo
era  a  altura da chaminé e o enorme buraco escuro que havia
logo  baixo,  o que poderia ser um belo tombo se contássemos
os  seis  metros para cima e os outros indeterminados metros
para  baixo.  Para  completar  o  caos mental, um vento frio
assobiava  em  meus  ouvidos. Ainda havia várias pessoas dos
grupos dianteiros que teriam que transpor a chaminé.        
  Analisava cada um que subia e procurava assimilar e gravar
seus  movimentos. Eram necessários mais de dez movimentos de
flexão  das  pernas  para  se alcançar o topo da chaminé. As
pessoas  que  subiam tinham cara de pavor. Juliano orientava
para  que  não  olhássemos  para  baixo  pois  prejudicava a
concentração.                                               
  Do  grupo dos paulistas, só eu permanecia embaixo, e a meu
lado,  mais  quatro  montanhistas,  além  de Juliano. Ele me
chamou,  agora  era  ra  valer. Juliano estava em um pequeno
platô bem abaixo da chaminé, e nós, um pouco mais afastados.
Pediu  que  fosse  junto  a ele. O platô era bem estreito e,
quando   saltei,   ele   me   segurou   para   que   não  me
desequilibrasse.  Abaixo de mim um enorme buraco, agora mais
nítido,  era bem profundo. Passou o laço da cordada pelo meu
peito e puxou o nó para firmar bem:                         
  - Olha,  coloca  seu  pé  esquerdo ali em cima e as costas
nesta lateral.                                              
  Juliano  me indicou uma posição acima de minha cabeça para
que colocasse o pé. Era impossível, não poderia alcançar.   
  - Cara,não alcanço.Como vou subir?                        
  - Calma, eu ajudo com minha mão. Vamos lá.                
  Tentei  mas  ainda faltavam uns vinte centímetros para que
alcançasse  a  posição. Juliano segurou meu pé e me ajudou a
posicioná-lo.  No  mesmo  instante  que  alcancei a posição,
num salto, coloquei as costas na outra extremidade e o outro
pé  também  na  rocha.  Estava encaixado na chaminé sem mais
nenhum  apoio  no  chão.  A  subida iria ser longa. Coloquei
meu  pé  direito  e  mãos abaixo de minhas nádegas e dei meu
primeiro  impulso. Foi o movimento da desinibição. Percebi o
quanto  aquele  método  era eficiente e me elevava com certa
facilidade.  Inverti  os pés colocando primeiro o pé direito
do  lado  oposto, e o pé esquerdo novamente abaixo de minhas
nádegas.  Com  as  mãos  e  o  pé subi meu corpo mais alguns
centímetros.  O  rapaz  que  fazia  segurança,  no  alto  da
chaminé,  puxava  a corda e ajudava a diminuir meu peso. Fiz
caretas,  resmunguei, gritei e ouvi palavras de incentivo de
Juliano.  Mais  algumas  trocas de pernas e mais centímetros
subia.                                                      
  Estava   na  metade  da  chaminé,quando  ela  estreitou-se
bastante,  a ponto de minhas pernas ficarem encolhidas. Acho
que entrei muito para o fundo da chaminé. Procurei consertar
meu  rumo mais para fora o que facilitou minha subida. Quase
no  topo,  minhas  pernas não alcançavam a parede oposta. As
paredes  da  chaminé  não  eram  perfeitamente paralelas, no
fundo  eram  estreitas  e  na  frente  largas.  Pedi  que me
ajudassem  puxando  para  cima, para que alcançasse um lugar
mais  estreito.  O  rapaz  que  fazia  minha  segurança  não
vacilou e, num forte puxão, fez meu corpo levantar, e chegar
ao  final  da  chaminé.  Outro  rapaz  ali estava, e com sua
ajuda,   em  dois  lances,  estava  a  seu  lado,  aliviado,
emocionado,  no  topo do Agulhas Negras. Não conhecia nenhum
dos  dois  que  ali  estavam mas tive vontade de abraçá-los,
afinal  minha  segurança  dependia  deles. Ainda voltei para
olhar  o  que  havia subido e, de cima, me pareceu realmente
uma grande façanha.                                         

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Biografia

Mistérios da XV de Novembro, o novo livro de Marcio

Jiló, um garoto em perigo

Agulhas, o primeiro livro

Jac


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