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Mistérios da XV de Novembro
Marcio Poletto
1 - As Histórias do Tio Déco
O almoço de domingo na casa do Caio era sempre uma
festa. Vinham todos para a comilança, para muitas risadas e
diversão certa. Às vezes apareciam por lá: os quatro avós,
alguns tios e até a família da Júlia, sua vizinha de
frente, que por sinal também era sua melhor amiga.
O pai, seu Celso, cuidava das bebidas e do churrasco,
que às vezes preparava no quintal. A mãe, dona Tereza, e a
mulherada que por lá passava, cuidavam da arrumação da
grande mesa, que montavam no quintal, das saladas, dos
pratos quentes, e para não perder o hábito, falavam pelos
cotovelos umas com as outras. Júlia, que também veio para
aquele almoço, estava acompanhada de seus pais e também de
sua irmã mais nova, Lili. Caio, que era muito amigo de
Júlia, não conseguia ser amigo de Lili, porque, na verdade,
tinha verdadeira paixão por ela, mas, como era mais nova
que ele, quase uma menina,ela ainda não pensava muito nessas
coisas de namoro. E não dava mesmo muita atenção para
ele.
Caio e Júlia tinham 15 anos, e Lili, 12. Caio gostava
de conversar com Júlia, de sair, ir ao cinema, mas em seu
íntimo, gostaria mesmo era de fazer tudo isso com Lili.
Júlia, que fazia de tudo para tratá-lo apenas como um
grande amigo, nem sempre conseguia esconder que gostaria de
tê-lo como namorado. E assim esse triângulo amoroso seguia
sem rumo e solução. Mas, eram jovens, e a vida era boa por
isso, pelas possibilidades e sonhos que viviam a cada
segundo de suas vidas.
E tinha o tio Déco.
Tio Déco era irmão de sua mãe e morava com eles. Era
viúvo, até que se prove o contrário. A prova em contrário
era que, seu tio, que já tinha lá uns 50 e tantos anos,
havia sido casado com Célia, uma mulher exuberante, loira e
esguia, durante alguns intensos meses, lá pelo início dos
anos 70, mas, de forma misteriosa, numa tarde de quinta-
feira, simplesmente desapareceu no centro de São Paulo e
nunca mais foi encontrada. Nenhuma testemunha, nenhuma
pista, nada, sumiu, escafedeu-se. Não tinha parentes nem
amigos; era uma mulher misteriosa. Na época em que se
conheceram, Tio Déco era jovem, tinha pouco mais de 20
anos, ainda morava com os pais, e apareceu um dia
acompanhado de Célia, dizendo que a havia conhecido naquela
mesma tarde, no centro da cidade, e que ela não tinha para
onde ir, e que ficaria morando com eles por alguns dias.
E esses dias viraram meses.
Um dia apareceram dizendo que haviam se casado,
causando um alvoroço na família e uma profunda revolta em
sua mãe, no caso, dona Mariana, avó do Caio. Poucos dias
depois Célia sumiu.
Desde então, tio Déco nunca mais foi o mesmo, não
falou mais coisa com coisa. Continuou trabalhando como bom
marceneiro que era, mas perdeu a razão. Nunca soube dizer
ao certo o que sucedera com sua amada. As únicas coisas que
contava, com uma clareza assustadora, eram os passeios que
costumava fazer com sua amada no centro de São Paulo, nos
cafés, o namoro nas praças, os passeios à pé e as grandes
noitadas. Só que a cidade que descrevia não parecia ser a
mesma que existiu de verdade. Os prédios eram tremendos
arranha-céus, alguns de mais de cem andares, as ruas do
centro eram arborizadas e limpas, cheia de gente bem
vestida. As praças tinham coretos coloridos e sempre
recebiam músicos que tocavam ininterruptamente até o meio da
madrugada. Havia muitos teatros com enormes letreiros
luminosos em pleno centro. Era uma cidade que não existia e
nunca existiu, mas por sua boca saíam histórias incríveis,
e era possível imaginá-las como se realmente tivessem
existido.
.........
7 - Segredos do Telhado
Jú e Caio voltaram ao quarto do tio Déco; abriram a porta
pouco depois das quatro da tarde. Novamente aproveitaram a
ida da mãe de Caio ao supermercado. Desta vez iniciaram suas
buscas diretamente no guarda-roupa. Vasculharam tudo o que
viram pela frente e que pudessem conter, principalmente,
fotos. Ansiavam por fotos. Jú seguia seus instintos de que
algo misterioso estava prestes a ser descoberto.
Meia hora de buscas, e a única coisa que conseguiram foi
frustração e cansaço. Não encontraram nada. As fotos que
acharam foram as mesmas que o próprio Déco já havia
mostrado. Sentaram na cama, exaustos e desanimados. E só
restava à eles, gurdarem tudo no seu devido lugar, fecharem
a porta e recolocarem as chaves no pote de feijão. E
foi o que começaram à fazer, pois Caio já mostrava bastante
inquietação:
__ Jú, não dá mais pra gente ficar aqui. Minha mãe já
está pra chegar. Vamos arrumar essa bagunça?
__ Tá bom, Caio, vamos lá __ um tanto chateada.
Colocaram as fotos nas caixas e as caixas no guarda-roupa,
no mesmo lugar que haviam tirado, e iam saindo quando Jú
olhou para o teto e teve mais um pressentimento, o alçapão
do teto pareceu chamar-lhe.
__ Caio, e esse alçapão do teto?
__ O que que tem?
__ A gente não procurou lá.
__ Ah, não vem não, Jú! Não vou subir lá, e minha mãe já
deve estar chegando.
__ Caio, meu instinto feminino diz que tem coisa lá.
__ É, meu instinto de filho em pânico diz que lá tem
pó e confusão. Deixa pra depois, Jú.
__ Caio, mas é só subir numa escada e abrir. Se tiver algo
a gente vai ver logo __ Jú fez aquela cara de clemência
misturada com o famoso charme feminino. E é claro que foi o
suficiente para convencer Caio a realizar os desejos da
amiga. Correu até o banheiro e pegou uma escada, que a mãe
usava para ajudar na limpeza de lugares mais altos. Voltou
correndo e posicionou a escada bem abaixo do alçapão. Subiu,
e com um bocado de força, conseguiu levantar e mover o
alçapão para o lado, abrindo uma brecha que já dava para ele
penetrar e poder espiar melhor, mas havia um problema,
não conseguiria enxergar pois a escuridão lá em cima era
total. Precisava de uma lanterna. Pediu a Jú que correse no
seu quarto e pegasse uma lanterna dentro de sua escrevaninha
de estudos, numa das gavetas. Jú saiu correndo enquanto Caio
tentava, com as mãos, achar alguma coisa que pudesse estar
perto do alçapão. E parece que achou algo, mas não conseguia
movê-lo; parecia uma mala. Jú apareceu, esbaforida, com a
lanterna na mão e logo passou para Caio, que ligou-a e
iluminou o estranho objeto. E o que viu confirmou suas
deduções,era mesmo uma mala. Tentou puxá-la para mais perto,
mas só conseguiu arrastá-la um pouquinho, pois parecia estar
presa numa viga do telhado. Teria que subir no forro, e era
justamente o que não queria. Mas foi o que acabou fazendo.
Com certa dificuldade chegou ao forro do quarto e, com a
lanterna,pode ver melhor a mala, que por sinal, estava muito
empoeirada. Por ser uma mala um pouco grande e estar muito
suja, achou melhor descobrir seu conteúdo no teto mesmo,
pois, se tentasse levá-la para baixo, depois teria que
colocá-la de volta, e isso seria certamente impossível,
sem a ajuda de um adulto, e dos bem fortes. Estava se
posicionando para abrir a mala quando Jú o chamou, e parecia
aflita:
__ Caio, chegou gente __ Jú ouviu barulho de porta batendo
no andar de baixo, mas Caio não entendeu direito o que ela
havia dito.
__ O quê? __ ele gritou e procurou aparecer no vão do
alçapão. Enfiou a cara e avistou Jú.
__ Caio, chegou alguém. Ouvi barulho de porta!
__ Ai, eu sabia que isso ia dar confusão!
Nesse instante Jú também ouviu passos que pareciam vir da
escada. Fez sinal de silêncio para Caio e indicou que tinha
gente subindo as escadas. No mesmo momento, sentiu o impulso
de fechar a porta, correu para ela e virou a chave.
__ Caio, fecha o alçapão, fica aí em cima até que eu avise
que a barra está limpa.
Caio fez o que ela mandou e se fechou no forro do quarto.
Jú pegou a escada e, olhando rapidamente em volta, percebeu
que poderia escondê-la atrás da cortina e assim também o
fez, ajeitando a cortina no mesmo instante que a chave
começou a virar do lado de fora da porta. Alguém entraria
no quarto e ela tinha que se esconder. E também tinha que
tirar a chave da fechadura, que havia esquecido de fazer
quando trancou a porta. E foi o tempo de correr até a porta,
tirar a chave sem fazer barulho, correr também para trás
da cortina, que foi o único lugar que lhe veio a cabeça, e
a porta se abriu, passos foram ouvidos e, logo em seguida,
a porta novamente trancada. Jú não conseguia ver quem havia
entrado e, a esta altura, nem respirava, e nem tampouco
poderia tremer de medo, pois seria descoberta,com o provável
movimento sincronizado da cortina com seu corpo.
__ AAhhh! Que dia! __ Era o tio Déco, se espreguiçando e
resmungando.
.........
15 - As Dissimulações de Lili
Jú entrou em casa e todos já estavam lá, aparentemente
tranquilos. Lili não estava na sala.
__ Oi, mãe, pai!
__ Oi, filha. Já jantou? __ perguntou sua mãe.
__ Já, na casa do Caio.
__ Foi incomodar a Tereza de novo.
__ Ah, mãe,eles convidaram e eu achei que vocês iam demorar.
__ Era só esquentar no microondas.
__ É, eu sei, mas não queria ficar sozinha.
__ Chegamos agora. Sua irmã está no quarto dela.
__ E o que o médico falou?
__ Ele acha que pode ter sido algo que ela comeu, ou...
__ Ou o quê, mãe?
__ Ou algo que deram pra ela experimentar.
__ Como assim, mãe?
Olga olhou para Cristiano, com cara de preocupação,
tentando pedir-lhe algum tipo de ajuda para a continuação
daquela conversa. Cristiano resolveu então assumir a
explicação:
__ Filha, sua irmã deve ter experimentado algum tipo de
droga, segundo o médico. Ele só não conseguiu definir qual
teria sido, pois as reações de Lili não se encaixavam com
nenhum tipo de droga que ele conhecia.
__ Mas será?
__ Infelizmente, essa é a verdade crua e nua.
__ Sua irmã esteve sob os efeitos de alguma droga.
__ E como ela está agora?
__ Acho que voltou ao normal. Vá até lá e veja se ela está
bem.
Jú aproveitou o pedido do pai e subiu até seu quarto. Abriu
a porta e encontrou a irmã assistindo televisão.
__ Oi, Lili!
__ Oi.
__ Está melhor?
__ Hum, hum __ enquanto comia um pedaço de bolo.
__ O que você teve?
__ Umas tonturas, acho.
__ Tonturas, é? __ Jú encarou-a com ar de reprovação.
__ É, tonturas.
__ E aquelas histórias de outra cidade, de prédios gigantes.
__ De onde você tirou isso?
__ Você mesma me contou.
__ Eu? __ com ar de espanto.
__ É, você. E eu até sei o que aconteceu com você.
__ Sabe?
__ Você fuçou nas coisas que pegamos do tio Déco,
roubou um diário e alguns cristais, e passeou por outra
dimensão.
__ Você está louca, é? De onde tirou essas
histórias?
__ Lili, não tente me enganar. Você estava com o
diário que eu vi.
__ Eu não sei do que está falando.
__ Não se faça de dissimulada. A mim você não
engana!
__ Jú, me deixa em paz. Quero dormir, tive um dia
difícil.
__ Vou ficar de olho em você.
__ Vou apagar a luz e desligar a tv.
Lili desligou a tv com o controle e desligou a
luz. Jú ficou no escuro e muito raivosa. Lili cortou a
conversa e virou-se para dormir. Jú ia saindo do quarto
mas ainda deixou sua última frase da noite:
__ Você precisa devolver as páginas que arrancou
do diário. Sabemos que estão com você __ Lili nem se
mexeu e Jú saiu do quarto.
.........
23 - Uma Viagem Turbulenta
Caio e Déco percorreram o trajeto da praça da Sé
à praça Ramos em menos de dez minutos. Antes de se
dirigirem as escadarias do Municipal, entraram num
boteco, pediram duas garrafas de água, abriram, pediram
um saleiro, encheram a garrafa de sal e saíram. O
funcionário não entendeu mas não disse nada contra.
Déco saiu na frente e Caio o seguiu. Pararam bem diante
do teatro e subiram alguns degraus. Eram quase seis da
tarde e o movimento de pedestres era intenso que nem
perceberiam o sumiço dos dois. Abriram suas garrafas,
Déco pegou o saco plástico do bolso, retirou dois
cristais brancos, deu um para Caio e colocou o seu na
garrafa, Caio fez o mesmo. Esperaram alguns minutos,
Déco deu a ordem:
__ Caio, beba e não se preocupe, apenas segure na
minha mão.
Beberam, sentiram o formigamento e começaram a ver
a imagem enevoada e embaçada. As escadarias do
Municipal que podiam ser vistas, ainda que não muito
nítidas, de repente, sumiram.
__ Caio, segure em mim. Alguma coisa mudou. A
escadaria sumiu.
Outras imagens começaram a aparecer até que uma
praça muito movimentada, cheia de barracas, como uma
feira, surgiu diante deles, nítida e estática.
__ Caio, vamos!
Déco segurou firme na mão do sobrinho e
caminharam. Surgiram num lugar que certamente não era o
Municipal. Era sujo, escuro, cheio de gente mal vestida
e barracos de todos os tamanhos que vendiam de tudo que
se pode imaginar.
__ Tio, onde estamos?
__ Não sei ainda, Caio. Vamos manter a calma.
__ Mas, tio, aqui não é o Municipal.
__ Eu sei, Caio. Acho que caímos em outro lugar.
Pelo menos a língua que falam é a mesma que a nossa.
Vamos andar e descobrir alguma coisa.
Andaram um pouco e chegaram ao que parecia ser um
ponto de ônibus e peruas. Na frente de cada veículo,
uma placa indicava o destino. Andaram e foram lendo as
placas até que começaram a se familiarizar com os
nomes: Guarapiranga, João Dias, Borba Gato...
Déco parou e leu a placa bem acima de sua cabeça:
Largo Treze de Maio.
__ Caio, viemos parar no largo Treze, em Santo
Amaro. Acho que o safado do Valdez vendeu pra gente um
cristal de péssima qualidade. Na volta ele me paga!
__ Um cristal estragado, tio?
__ Só pode ser isso! Isso nunca aconteceu antes.
Deve ser o cristal! Mas agora isso não importa muito.
Temos que sair daqui e chegar ao centro o mais rápido
possível.
Déco, sem se importar muito com o que pensariam,
começou a se informar com todos que passavam por ele:
__ Moço, como faço para chegar ao centro?
__ Centro, que centro?
__ Centro da cidade, rua Direita, XV de
Novembro...
__ Pegue um ônibus até o aeroporto de Congonhas.
Depois é com o senhor.
__ Não tem nenhum que vá direto?
O home deu risada e continuou a conversa:
__ Direto? Acho que não. Ta tirando uma da minha
cara, é?
__ Tirando uma? Não, de forma alguma! Por que diz
isso?
__ Não mora aqui, não?
__ Não, viemos de longe, acabamos de chegar.
__ Sei... __ o homem estava cismado com Déco,
ainda crente que este caçoava dele.
__ Tá bom, quer brincar, então vamos brincar. Pega
o helicóptero ali da esquina que chega ao centro
rapidinho, só precisa desviar dos tiros dos guardas.
O homem foi embora rindo dos dois, sem dizer mais
nada.
__ Caio, o que eu disse de errado?
__ Não sei, tio, mas acho que é alguma coisa que é
muito comum por aqui e que a gente não sabe.
__ Talvez. Vamos fazer o seguinte. Pegamos uma
condução até o aeroporto e depois verificamos, nós
mesmos, o que acontece por lá.
__ E como vamos tomar esses ônibus sem dinheiro?
__ Tenho algumas jóias comigo, que eram da sua
avó, espero que sirvam pra alguma coisa.
Déco estranhou o lugar, pois do que se lembrava de
suas antigas viagens, tudo era limpo, organizado,
moderno, e o que via, não condizia com o que conhecera
daquela São Paulo. Ficou receoso que pudesse estar em
outra dimensão, diferente da que costumava estar.
Lembrou do que Valdez disse sobre o desligamento das
duas dimensões e temeu por si e por seu sobrinho, mas
continuou.
Parou diante de uma perua que indicava placa para
o aeroporto de Congonhas. Um homem negro, de bigodes e
totalmente careca, aguardava ao lado do veículo:
__ Senhor, está indo pra Congonhas?
O homem pegou nos fios de seu bigode e virou-os
levemente. Olhou para Déco e para Caio com certo
desprezo e respondeu:
__ Daqui a meia hora.
__ Não dá pra ir agora?
__ Disse meia hora.
__ Quanto é?
__ Duas pratas por cabeça.
Déco tirou do bolso um anel de ouro e deu ao
homem.
__ O que é isso? Anel... de ouro... não tenho
troco pra isso.
__ Pode ficar com ele.
__ Ta me achando com cara de idiota, é? To falando
que não tenho troco pra isso.
__ Fica com ele e leva a gente pra lá agora.
__ Negócio fechado, gente fina. Subam.
Os dois entraram sem entender o que realmente
estava acontecendo. Déco ainda tinha mais alguns anéis
no bolso e achou que valia o gasto. O negro saiu com
sua perua e seguiu na direção do centro. O homem,
percebendo que havia algo de diferente com os dois,
tentou puxar conversa para ver se descobria algo mais:
__ Tão indo pra onde?
__ Centro, teatro Municipal.
__ Moram por lá?
__ Não, vamos assistir... a um concerto, é isso.
__ Sei. E tem autorização?
__ Autorização? Pra quê?
__ Pra que... __ o homem riu e ficou calado por
uns instantes.
.........
Os guardas do castelo, já informados sobre o
levante que se aproximava, estavam à postos para a
defesa do grande castelo. Os guerreiros chegaram e
pararam há uns cem metros da entrada do grande portão.
Alemão, que aos poucos foi sendo aceito como o real
líder daquele levante, tomou à frente da mutidão, subiu
em cima de um carro que ali havia estacionado e iniciou
seu discurso:
__ Hoje vamos acabar com a festa dos "bacanas"!
Chega de vida boa para eles, chega de grana só para
eles!
__ Chega! Chega! Chega!
Os urros dos seguidores foram ouvidos para dentro
do grande muro e seus privilegiados moradores, agora já
conhecedores, através de rádios e tevês, do que estava
prestes à acontecer, começavam à sair de suas casas, na
tentativa de encontrarem algum abrigo mais seguro. A
cidade começava à se desesperar. Toda a força policial
e parte do exército iniciava também sua mobilização. A
guerra estava prestes à começar e, o "clone" de Caio, e
Jú, aguardavam, sem saber o que fazer, em meio aos
revoltosos.
Alemão, num gesto impensado e, diríamos, até
heróico, pegou um pacote das mãos de outro rapaz, que
estava logo ao seu lado, subiu em sua moto e saiu em
direção ao grande portão. Os guardas, em estado máximo
de alerta, prepararam suas armas e, ao sinal de um de
seus superiores, começaram à atirar. Alemão segurava o
pacote em seu colo e gritava:
__ Vou acabar com vocês! Vou acabar com vocês!
Os tiros vinham de várias direções e, como seria
de se esperar, acertaram Alemão várias vezes. Sua moto
estava em alta velocidade. Alemão caiu com seu corpo em
cima do guidão e a moto continuou seguindo seu destino,
em linha reta, na direção do grande portão, que bateu
nele com muita força e, o pacote que carregava, na
verdade, uma bomba de forte poder destruidor, causou
uma grande explosão fazendo com que tudo fosse para o
ares, inclusive o enorme portão, que veio abaixo de uma
só vez. Uma grande bola de fogo se formou e, alguns
minutos depois, pode-se ver o rombo que o suicida
Alemão havia feito. Era possível avistar para dentro da
muralha, que aparentemente havia sido vencida, apesar
de os guardas não haverem parado com os tiros. A
mutidão enfurecida, sem medir as consequencias que
poderiam vir, avançaram feito feras desembestadas na
direção do portão caído. Muitos caíram desfalecidos,
mas outros tantos conseguiram entrar e, aos montes,
lutavam com os poucos guardas que ali se encontravam.
Foi nesse momento que Caio e Jú, aproveitando a parcial
vitória dos invasores, passaram com a moto dele pelo
portão arrebentado e seguiram em direção ao centro, já
que Jú só tinha trinta minutos para chegar ao portal.
A confusão no interior da cidadela era grande.
Motoqueiros, aos bandos, saqueavam o que viam pela
frente. Moradores e pedestres eram vítimas fáceis, pois
viviam num mundo supostamente seguro, e não se
preocupavam com a violência, não viviam entrincheirados
como os habitantes da outra São Paulo, pois achavam que
suas vidas estariam sempre bem guardadas pelos serviços
de segurança do estado.
Caio avançava velozmente com sua moto em direção
ao centro da cidade. A avenida Vinte e Três de Maio era
vencida com certa facilidade pois a confusão maior
havia ficado para trás. Jú virou a cabeça e avistou que
um grupo grande de motoqueiros vinham há cerca de
oitocentos metros atrás deles. Faziam uma grande
arruaça e iam batendo, esmurrando e atirando, com suas
armas, nos poucos carros que cruzavam por eles. E, em
pouco mais de cinco minutos, Caio e Jú chegaram ao vale
do Anhangabaú. Caio ficou completamente paralisado
diante do majestoso conjunto de prédios do vale,
estacionou sua moto em frente ao destino final de Jú:
as Três Torres de Cristal.
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