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Jiló - Um Garoto em Perigo
Marcio Poletto
1 - O NOVO VIZINHO
Chicão surgiu na sala com cara de muito sono;havia acabado
de levantar. Caminhou, ainda zonzo, para a cozinha e pegou
uma laranja e uma mexerica na geladeira. Voltou para a sala
e andou até a janela. A luz do dia ofuscou sua vista e teve
de fechar parcialmente os olhos. Do 2º andar, olhou para os
prédios, como sempre fazia, e depois para o terreno baldio,
que ficava embaixo de sua janela.
Uma nova visão o surpreendeu; um barraco havia surgido
no meio do terreno. Um garotinho negro caminhava em volta e
chutava uma pequena bola murcha. Chicão ficou olhando o
garoto e, sua mente, sempre cheia de más idéias, já começou
a imaginar alguma forma de acabar com a brincadeira do
moleque. No mesmo instante, o garoto, que só usava um
surrado calçãozinho, olhou para cima e avistou Chicão; seus
olhares se encontraram e pareceram faiscar. O garoto
encarou-o por alguns instantes e depois fez um gesto
mandando "uma banana" para Chicão que, surpreso, não pensou
duas vezes: debruçou no beiral da janela e "mandou" sua
laranja para cima do garoto. Passou perto, quase o acertou,
caiu no chão e rolou pelo terreno. O garoto correu, pegou a
laranja, mandou outra "banana" e rumou para dentro do
barraco. Chicão ficou transtornado:
- Moleque safado, você me paga. No primeiro dia e já
rouba minha laranja! A melancia acabou ontem, senão você ia
ver só!
Eram seis e meia da manhã, e Chicão tinha de correr para
pegar a aula das sete e meia no Padre Miguel, colégio
particular de classe média na zona sul de São Paulo,
próximo ao aeroporto de Congonhas. Caminhou para o
banheiro, não deu nem cinco passos e ouviu um rádio ser
ligado em alto volume; vinha do terreno. Deu meia volta e
retornou à janela. Avistou uma mulher, também negra, que
tentava arrumar alguma coisa para fazer, pois andava de um
lado para outro e olhava para o barraco. O rádio estava em
cima de uma cadeira velha e tinha uma antena enorme. O
programa era religioso e o locutor gritava "Aleluia" a cada
cinco segundos de locução. Chicão procurou alguma coisa
pela sala para atirar para baixo e achou um jornal velho.
Amassou bem, enrolou-o, chegou até a janela e gritou para a
mulher:
- Abaixa o rádio, quero dormir! - bateu o jornal no
beiral da janela.
- Ah! Num enche o saco! - a moça não tinha lá muita
educação. Chicão também não!
Nesse momento, Nanda, amiga e vizinha de Chicão,
apareceu na janela de cima. Ela percebeu o que iria
acontecer e resolveu intervir:
- Chicão! Não arruma mais confusão no prédio. Você já
está bem encrencado por aqui - olhou para a moça negra e
tentou chamá-la. - Dona, abaixa um pouquinho o rádio, por
favor!
A moça olhou meio insolente, colocou a mão na cintura,
foi até o rádio e baixou o som, deixando-o num volume mais
razoável.
- Chicão, sai dessa janela e vai se arrumar que eu já
estou quase pronta - os dois sempre iam juntos para a
escola. Nanda, um ano mais velha, cursava o 2o ano do
segundo ciclo, e Chicão o 1º.
- Tá bom! Não precisa ficar me pajeando! - estava de mau
humor. Entrou e foi se arrumar.
Alguns minutos depois voltava para a sala já arrumado.
Vestia sua calça favorita, superlarga, boné virado para
trás e enormes botas, as quais adorava. Arrumou sua
mochila, colocou alguns livros e cadernos e ia saindo
quando sua janela, que ainda estava aberta, recebeu uma
chuva de cascas e bagaço de laranja, que se espalharam pela
sala e por cima do sofá. Obviamente só poderiam ter vindo
do terreno, lançados pelo moleque. Chicão, furioso, voou
para a janela e só pôde ver o moleque correndo para a rua e
sumindo em disparada pelo bairro.
- Você quer guerra! Então está declarada guerra pra
valer! - a cara que fez foi de raiva mas, no fundo, estava
adorando o que acabara de acontecer. Vibrava com uma boa
disputa.
Saiu e fechou a porta. Desceu correndo as escadas e
encontrou Nanda na portaria, como sempre, à sua espera.
- Pô Chicão, que demora!
- Não vem me encher não, meu dia não começou bem.
- Você só arruma confusão! Foi brigar com os
favelados...
- Eles estão com os dias contados, estamos em guerra.
- Guerra?
- Guerra, é isso que você entendeu. O moleque quer
briga.
- Mas é só um pirralho! Não deve ter nem sete anos de
idade!
- Mas já é um marginalzinho. Se deixar essa gente fazer
o que quer, amanhã entram na sua casa, roubam tudo, dormem
na sua cama, usam sua roupa e comem sua...
- Comem o quê? Seu sem educação.
- Sua comida, Nanda. Ah, esquece, a briga é minha -
enquanto conversavam, também caminhavam.
..................
6 - A PUNIÇÃO
Esse tipo de notícia se espalha muito rápido. Tinha de
impedir que o porteiro contasse para mais alguém. Se fosse
parar no ouvido do zelador, no mesmo dia seu pai ficaria
sabendo e seria punição na certa. Se contasse para a dona
do barraco, seria pior ainda. Precisava "comprá-lo" de
algum jeito. Mandou uma mensagem para os celulares da
turma: "Porteiro sabe de tudo, achou o chumbo. Preciso de
ajuda. Chicão". A mensagem chegou e deixou um sinal de
preocupação em todos. Mas o que poderiam fazer? O
apartamento era do Chicão, o tiro foi ele quem deu, a briga
foi ele quem arrumou, então, concluíram todos, ele que se
vire!
Chicão ficou remoendo-se a tarde inteira, e nenhum de
seus amigos o procurou: "Desgraçados, bichonas, querem que
só eu me dane, né? Vão ver só". O telefone tocou, ele ficou
com medo de atender, poderia ser o zelador, ou um de seus
amigos, mas também poderia ser seu pai, mesmo assim,
resolveu atender:
- Alô.
- Filho? - era o pai. Italiano, com forte sotaque. "Tô
danado", pensou.
- Oi pai, tudo bem? - já tremendo.
- Tudo, e com você, tudo bem?
- Tudo, pai, tava estudando.
- Estudando? Ah, mas não é o que seu Humberto me contou,
eco - seu Humberto era o zelador.
- O que ele contou?
- Que você andou aprontando mais uma das suas.
- Não foi nada não pai, só uma brincadeirinha - suando
frio.
- Brincadeirinha é! Parece que inundou o barraco do
terreno ao lado, e com a espingarda que teu pai te deu. Não
é uma coisa correta, não é, filho - Chicão não respondeu,
estava mudo.
- Não é, filho? - num tom mais forte.
- Éééé sim, pai - gaguejando.
- Tá certo que as tentações são grandes, uma bóia
exposta, um vizinho novo, talvez não desejado, amizades
erradas. E quando a gente vê, o tiro já foi. Eu sei como é.
- Você sabe, pai? - com alguma esperança de escapar.
- Eu sei, filho, eu também aprontei das minhas quando
tinha a sua idade, mas...
- Mas o quê, pai? - quase chorando de nervoso.
- Mas meu pai sempre me dava um castigo. Eu aprontava,
achava o máximo e depois vinha a punição. É a lei da vida,
filho.
- É, pai? E ...
- E você vai comprar uma bóia nova, vai bater no barraco
da moça, vai pedir desculpas, trocar a bóia e...
- Trocar a bóia? Pô, tudo menos isso!
- E não acabei ainda - o pai falou num tom mais
enérgico. - Vai pegar metade de sua mesada e vai dar para
ela. Deve ter molhado tudo por lá, estou certo? Talvez
tenha perdido muita coisa. Gente pobre, filho, não tem
nada, se perde alguma coisa, a desgraça é ainda maior.
- A mesada, pai? Mas estamos no começo do mês!
- É, filho, a mesada, e vê se manera um pouco. Estou
cheio de problemas aqui na empresa e ainda tenho de me
preocupar para ajeitar suas encrencas.
- Tá bom, pai - desconsolado.
- Tchau, filho. No fim de semana a gente passa por aí.
- Tchau, pai.
O pai desligou o telefone e soltou uma gargalhada:
"Esses meninos de hoje são fogo! Atirou na bóia da caixa
d'água". E riu novamente.
Chicão estava arrasado. E sua fama de mau, seu orgulho,
o que iriam dizer? Ele em cima do barraco. Ah, os
traidores! Estavam atravessados em sua garganta. O telefone
tocou de novo:
- Alô.
- Filho, sou eu de novo. E não quero saber de outro
trocando a bóia. Você furou, você troca. Tchau - e bateu o
telefone.
- Droga!
...........
Chicão viu Nanda entrando de volta no prédio e gritou
novamente para ela:
- Nanda, o Sabão está aqui!
Ela olhou para cima e viu Chicão perigosamente sentado
na janela:
- Seu louco, o que você está fazendo aí?
- O Sabão está aqui na sala. Sobe logo.
- Nossa, deixei a porta aberta!
Saiu correndo e segundos depois apareceu no apê do
Chicão já segurando a coleira da fera. E o que viu também a
intrigou:
- O que ele está comendo?
- Acho que é maconha - esclareceu Jonas.
- Maconha? Chicão, o que é isso? Fumando maconha? Mas
era só o que faltava...
- Nããoo! Não sei nada dessa maconha! - assustado e
nervoso com a acusação dela.
- Não sabe?
- Tira logo esse animal daí! Pare de perguntar sobre
maconha. Depois a gente vê isso.
- Calma. Vou tentar laçá-lo - ela caminhou para perto
dele.
O bicho não a respeitava muito. Já tentara mordê-la
várias vezes, mas ela sempre batia nele com uma cinta
quando ele a ameaçava. E, pensando na possibilidade de ele
avançar, tirou a cinta que prendia sua calça e a segurou
com uma mão enquanto a outra segurava a coleira.
A laçada foi fácil. Sabão estava quase desmaiado,
sonolento. Havia ingerido todo o pacote. Nanda teve de
carregá-lo no colo de tão mole que estava. Antes de sair do
apê, avisou:
- Eu já volto. Quero saber essa história de maconha
direitinho, viu, Chicão? - olhou para ele que só agora
descia do parapeito da janela.
A maconha havia vencido a fera. Jonas e Huguinho também
saíram do quarto e, após Nanda fechar a porta da sala,
foram os três direto ver de perto o que tinha sobrado do
pacote, que agora resumia-se a um enorme pedaço de papel,
todo sujo com a baba do cão e fiapos de maconha. Jonas se
antecipou, pegou o papel e o amassou. Logo em seguida,
chegou Nanda já cobrando de Chicão explicações:
- Chicão, que história é essa de maconha?
- Eu não sei, já disse.
- Como não sabe? Como que essa coisa foi parar aí dentro
do banco?
- Foi plantada.
- Plantada?
- É, alguém colocou aí.
- Quem?
...................
Alice logo percebeu que a fantasia não era muito
apropriada, pois a maioria das pessoas mostravam o rosto,
mas ela tinha de se esconder para que o plano desse certo.
Pouco tempo depois chegaram os garotos. O pai de Jonas
trouxe a turma toda no furgão da família. Huguinho teve de
vir sozinho no último banco, pois, além do seu já conhecido
tamanho avantajado, veio fantasiado de repolho, e ficou
maior ainda. Jonas e Plínio vieram de Frajola e Piu-piu,
respectivamente, e Chicão, de demônio da Tasmânia, e estava
realmente horrível, pois sua cara às vezes surgia de dentro
da enorme boca do monstro. Ao seu lado, sempre segurado
pelo braço, um estranho, bem menor que ele, fantasiado de
Pernalonga; era o convidado surpresa. E Nanda? Não veio,
pois Murilo não deixou. Ela ficou com muita vontade de vir,
era festa de gente rica, onde tudo de diferente acontece.
Ficou em casa com sua mãe, Murilo e Jiló assistindo a um
novo vídeo, recentemente lançado.
Desceram. Jonas foi na frente e estava muito estranho,
pois a roupa era um número maior que o seu, e tudo sobrava.
Logo atrás seguiram Plínio, Huguinho, Chicão e o misterioso
Pernalonga, preso pelo braço. Parecia meio zonzo. Teve de
ser ajudado quando chegaram na longa escadaria.
Apresentaram os convites e entraram, apesar de o
porteiro ter estranhado um pouco o fato de Chicão estar
agarrado ao desengonçado coelho. Caminharam por um extenso
gramado, que passava ao lado de inúmeras janelas e portas.
Atrás da enorme construção, os convidados movimentavam-se
ao lado de uma grande piscina e para dentro da mansão.
Muitos garçons caminhavam apressados com bandejas repletas
de gostosos aperitivos e bebidas diversas. Huguinho logo
cercou um deles e abocanhou alguns canapés.
- Já começou a comilança? - perguntou Jonas.
- Tô com fome.
- Imagina o quanto vai ter de comer pra encher esse
repolho!
- Deixa minha fantasia. Era a única que tinha de corpo
inteiro e que me servia.
- Mas repolho! Faz de conta que a gente não se conhece,
tá?
- Pô, eu sempre fico com o pior em tudo! - na cabeça
ainda tinha umas folhagens que caíam sobre sua cara.
Alice logo os reconheceu e caminhou até onde estavam.
- Meninos, oi, sou eu, Alice.
Plínio foi na sua direção:
- Alice, que fantasia legal!
- Gostou? Era a mais fechada que achei. Não estou à
vontade com ela. Na verdade, estou me sentindo ridícula.
- Não! Tá legal...
- Vocês também estão muito... - ameaçou rir e continuou.
- ...engraçados - e riu de verdade. Plínio a acompanhou.
- Preferimos não revelar nossa identidade.
Não estavam nada charmosos naquela noite e formavam um
casal quase perfeito.
- Quem é aquele cara agarrado ao Chicão? - perguntou
Alice.
- É o tal, o que irá no seu lugar.
- E quem é?
- Eles não quiseram me falar.
- Mas parece ser mais novo que nós...
- É, parece.
- O que eles estão aprontando?
- Só vamos saber mais tarde.
Nesse momento, aproximou-se Jonas, depois de ter
conversado algo com Chicão.
- Oi, Alice.
- Oi, tudo certo?
- Por enquanto sim. O cara é aquele ali.
- E quem é?
- É melhor não falar nada. Pode ter alguém de olho na
gente. O plano é o seguinte: você vai fingir que bebeu mais
do que o normal e vai ficar bêbada.
- Mas...
...................
- Jiló, fica aí! Ainda tem inimigo lá fora.
O garoto tratou de voltar ao seu posto.
- Preparar plano dois! - gritou para Jiló.
- Certo, general! - ele respondeu.
O garçom, sem saber o que fazer, ameaçou invadir a sala
para tirar Zecão de lá. Chicão, com sua espingarda de
chumbo apoiada no ombro, usou de sua já conhecida mira
perfeita e acertou a bunda do garçom. Ele saltou feito gato
e saiu em disparada do apê.
- Ai, minha bunda!
- Boa, Chicão! - gritou Samuca.
- Chumbo na bunda dele, general! - pulou Jiló
entusiasmado.
O garçom aproveitou e se mandou do prédio. Era o mais
sensato a fazer.
O filho de Margot, também furioso, e sem medo de mais
nada, resolveu invadir o apê. Tinha um canivete afiado e
entrou na sala correndo. Chicão ainda armava a espingarda
para novo tiro. Samuca não teve coragem de atirar, nunca
havia estado numa situação daquelas e ficou paralisado
diante do perigo iminente. O garoto veio na direção dele,
pois percebeu sua paralisia momentânea. Chicão gritou
novamente para Jiló:
- Jiló, solta o bicho! - Chicão levantou-se já pronto
para lutar com o garoto enfurecido.
.................
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