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Marcio Poletto





Mistérios da XV de Novembro, ilustrado por
Daniel Bueno , o novo livro de Marcio, pela editora Prumo
Na Mídia           O Que Dizem Por Aí           As Andanças



Mistérios da XV de Novembro.....

Déco, solteiro, 50 anos, mora com sua irmã, o cunhado e o sobrinho Caio. Foi casado com Célia por apenas algumas semanas na década de 70. Célia, uma mulher exuberante, mas muito misteriosa, sumiu de repente no centro da cidade e Déco, desde aquela época, não fala mais coisa com coisa. Sempre que lhe dão chance vive inventando histórias de uma cidade de São Paulo que nunca existiu: prédios enormes com mais de cem andares, pessoas elegantes circulando num centro da cidade limpo, sofisticado, grandes teatros e grandes empresas. Todos já estão acostumados com suas histórias que passaram a ser contadas desde o sumiço da misteriosa Célia. Mas uma menina, Jú, que é amiga de Caio e mora na casa em frente à deles, muito desconfiada, acha que tem coisa por trás das histórias de Déco. Jú e Caio, muito pressionado por ela, passam a investigar a vida de Déco, seu quarto e seu passado. Descobrem coisas muito misteriosas sobre Célia e a São Paulo dos tremendos prédios. Déco não estava totalmente louco, realmente esteve na outra São Paulo que vive contando e, Caio e Jú, após muitas peripécias vão parar lá, e o pior, não tem mais como voltar. Uma história cheia de surpresas, situações inusitadas, bruxos e outras dimensões. Mistérios da XV de Novembro leva você para um mundo novo, cheio de perigos e emoções. O livro fala de duas cidades de São Paulo que existem em dimensões diferentes. Têm passados semelhantes mas seguiram caminhos históricos distintos.

Mistérios da XV de Novembro - Ficção Infanto Juvenil, Editora Prumo, 2010, 224 páginas.


Leia alguns trechos do livro...




                  Mistérios da XV de Novembro                 
                                                            
                        Marcio Poletto                      
                                                            

  1 - As Histórias do Tio Déco                             
                                                            
                                                            
  O  almoço  de  domingo  na  casa  do  Caio  era sempre uma
festa.  Vinham todos para a comilança, para muitas risadas e
diversão  certa. Às vezes apareciam por lá: os quatro  avós,
alguns  tios  e  até  a  família  da  Ju,  sua vizinha de
frente, que por sinal também era sua melhor amiga.          
  O  pai,  seu  Celso,  cuidava  das bebidas e do churrasco,
que  às  vezes preparava no quintal. A mãe, dona Tereza, e a
mulherada  que  por  lá  passava,  cuidavam  da arrumação da
grande  mesa,  que  montavam  no  quintal,  das saladas, dos
pratos  quentes,  e  para não perder o hábito, falavam pelos
cotovelos  umas  com  as outras. Ju, que também veio para
aquele  almoço, estava acompanhada de seus pais e também  de
sua irmã mais nova, Lili.  Caio,  que  era  muito  amigo  de
Ju,  não conseguia ser amigo de Lili, porque, na verdade,
tinha  verdadeira  paixão  por  ela, mas, como era mais nova
que ele, quase uma menina,ela ainda não pensava muito nessas
coisas  de  namoro.  E  não  dava  mesmo  muita atenção para
ele.                                                        
  Caio  e  Ju  tinham  15  anos, e Lili, 12. Caio gostava
de  conversar  com  Ju, de sair, ir ao cinema, mas em seu
íntimo, gostaria mesmo era de fazer tudo isso com Lili.     
  Ju,  que  fazia  de  tudo  para tratá-lo apenas como um
grande  amigo, nem sempre conseguia esconder que gostaria de
tê-lo  como  namorado. E assim esse triângulo amoroso seguia
sem  rumo  e solução. Mas, eram jovens, e a vida era boa por
isso,  pelas  possibilidades  e  sonhos  que  viviam  a cada
segundo de suas vidas.                                      
  E tinha o tio Déco.                                       
  Tio  Déco  era  irmão  de  sua  mãe e morava com eles. Era
viúvo,  até  que  se prove o contrário. A prova em contrário
era  que,  seu  tio,  que  já tinha lá uns 50 e tantos anos,
havia  sido casado com Célia, uma mulher exuberante, loira e
esguia,  durante  alguns  intensos meses, lá pelo início dos
anos  70,  mas,  de  forma misteriosa, numa tarde de quinta-
feira,  simplesmente  desapareceu  no  centro de São Paulo e
nunca  mais  foi  encontrada.  Nenhuma  testemunha,  nenhuma
pista,  nada,  sumiu,  escafedeu-se.  Não tinha parentes nem
amigos;  era  uma  mulher  misteriosa.  Na  época  em que se
conheceram,  Tio  Déco  era  jovem,  tinha  pouco mais de 20
anos,   ainda   morava  com  os  pais,  e  apareceu  um  dia
acompanhado  de Célia, dizendo que a havia conhecido naquela
mesma tarde, no centro da cidade, e que ela não  tinha  para
onde ir, e que ficaria morando com  eles  por  alguns  dias.
E esses dias viraram meses.                                 
  Um   dia   apareceram   dizendo   que  haviam  se  casado,
causando  um  alvoroço  na família e uma profunda revolta em
sua  mãe,  no  caso,  dona Mariana, avó do Caio. Poucos dias
depois Célia sumiu.                                         
  Desde  então,  tio  Déco  nunca  mais  foi  o  mesmo,  não
falou  mais  coisa com coisa. Continuou trabalhando como bom
marceneiro  que  era,  mas perdeu a razão. Nunca soube dizer
ao  certo o que sucedera com sua amada. As únicas coisas que
contava,  com  uma clareza assustadora, eram os passeios que
costumava  fazer  com  sua amada no centro de São Paulo, nos
cafés,  o  namoro  nas praças, os passeios à pé e as grandes
noitadas.  Só  que  a cidade que descrevia não parecia ser a
mesma  que  existiu  de  verdade.  Os prédios eram tremendos
arranha-céus,  alguns  de  mais  de  cem andares, as ruas do
centro  eram  arborizadas  e  limpas,  cheia  de  gente  bem
vestida.   As  praças  tinham  coretos  coloridos  e  sempre
recebiam músicos que tocavam ininterruptamente até o meio da
madrugada.  Havia   muitos  teatros  com  enormes  letreiros
luminosos  em pleno centro. Era uma cidade que não existia e
nunca  existiu,  mas por sua boca saíam histórias incríveis,
e era   possível  imaginá-las  como  se  realmente  tivessem
existido.                                                   

.........

  7 - Segredos do Telhado                                   
                                                            
                                                            
  Jú e Caio voltaram ao quarto do tio Déco; abriram a  porta
pouco depois das quatro da tarde. Novamente  aproveitaram  a
ida da mãe de Caio ao supermercado. Desta vez iniciaram suas
buscas diretamente no  guarda-roupa. Vasculharam tudo  o que
viram pela frente e  que  pudessem  conter,  principalmente,
fotos. Ansiavam por fotos. Jú seguia seus instintos  de  que
algo misterioso estava prestes a ser descoberto.            
  Meia hora de buscas, e a única coisa que  conseguiram  foi
frustração e cansaço. Não encontraram  nada.  As  fotos  que
acharam  foram  as  mesmas  que  o  próprio  Déco  já  havia
mostrado. Sentaram na cama, exaustos  e  desanimados.  E  só
restava à eles, gurdarem tudo no seu devido  lugar, fecharem
a porta e  recolocarem  as  chaves  no  pote  de  feijão.  E
foi o que começaram à fazer, pois Caio já mostrava  bastante
inquietação:                                                
  __ Jú, não dá mais pra gente  ficar  aqui.  Minha  mãe  já
está pra chegar. Vamos arrumar essa bagunça?                
  __ Tá bom, Caio, vamos lá __ um tanto chateada.           
  Colocaram as fotos nas caixas e as caixas no guarda-roupa,
no mesmo lugar que haviam tirado, e  iam  saindo  quando  Jú
olhou para o teto e teve mais um pressentimento,  o  alçapão
do teto pareceu chamar-lhe.                                 
  __ Caio, e esse alçapão do teto?                          
  __ O que que tem?                                         
  __ A gente não procurou lá.                               
  __ Ah, não vem não, Jú! Não vou subir lá, e minha  mãe  já
deve estar chegando.                                        
  __ Caio, meu instinto feminino diz que tem coisa lá.      
  __ É, meu instinto de filho  em  pânico  diz  que  lá  tem
pó e confusão. Deixa pra depois, Jú.                        
  __ Caio, mas é só subir numa escada e abrir. Se tiver algo
a gente vai ver logo __ Jú  fez  aquela  cara  de  clemência
misturada com o famoso charme feminino. E é claro que foi  o
suficiente  para  convencer Caio a realizar  os  desejos  da
amiga. Correu até o banheiro e pegou uma escada, que  a  mãe
usava para ajudar na limpeza de lugares mais  altos.  Voltou
correndo e posicionou a escada bem abaixo do alçapão. Subiu,
e com um bocado de  força,  conseguiu  levantar  e  mover  o
alçapão para o lado, abrindo uma brecha que já dava para ele
penetrar e poder  espiar  melhor,  mas  havia  um  problema,
não conseguiria enxergar pois a escuridão  lá  em  cima  era
total. Precisava de uma lanterna. Pediu a Jú que correse  no
seu quarto e pegasse uma lanterna dentro de sua escrevaninha
de estudos, numa das gavetas. Jú saiu correndo enquanto Caio
tentava, com as mãos, achar alguma coisa que  pudesse  estar
perto do alçapão. E parece que achou algo, mas não conseguia
movê-lo; parecia uma mala. Jú apareceu,  esbaforida,  com  a
lanterna na mão e logo  passou  para  Caio,  que  ligou-a  e
iluminou o estranho objeto.  E  o  que  viu  confirmou  suas
deduções,era mesmo uma mala. Tentou puxá-la para mais perto,
mas só conseguiu arrastá-la um pouquinho, pois parecia estar
presa numa viga do telhado. Teria que subir no forro, e  era
justamente o que não queria. Mas foi o que  acabou  fazendo.
Com certa dificuldade chegou ao forro do  quarto  e,  com  a
lanterna,pode ver melhor a mala, que por sinal, estava muito
empoeirada. Por ser uma mala um pouco grande e  estar  muito
suja, achou melhor descobrir seu  conteúdo  no  teto  mesmo,
pois, se tentasse  levá-la  para  baixo,  depois  teria  que
colocá-la de volta,  e  isso  seria  certamente  impossível,
sem a ajuda de um  adulto,  e  dos  bem  fortes.  Estava  se
posicionando para abrir a mala quando Jú o chamou, e parecia
aflita:                                                     
  __ Caio, chegou gente __ Jú ouviu barulho de porta batendo
no andar de baixo, mas Caio não entendeu direito o  que  ela
havia dito.                                                 
  __ O quê? __ ele gritou e  procurou  aparecer  no  vão  do
alçapão. Enfiou a cara e avistou Jú.                        
  __ Caio, chegou alguém. Ouvi barulho de porta!            
  __ Ai, eu sabia que isso ia dar confusão!                 
  Nesse instante Jú também ouviu passos que pareciam vir  da
escada. Fez sinal de silêncio para Caio e indicou que  tinha
gente subindo as escadas. No mesmo momento, sentiu o impulso
de fechar a porta, correu para ela e virou a chave.         
  __ Caio, fecha o alçapão, fica aí em cima até que eu avise
que a barra está limpa.                                     
  Caio fez o que ela mandou e se fechou no forro do  quarto.
Jú pegou a escada e, olhando rapidamente em  volta, percebeu
que poderia escondê-la atrás da cortina  e  assim  também  o
fez, ajeitando a cortina  no  mesmo  instante  que  a  chave
começou a virar do lado de fora da  porta.  Alguém  entraria
no quarto e ela tinha que se esconder. E  também  tinha  que
tirar a chave da fechadura, que  havia  esquecido  de  fazer
quando trancou a porta. E foi o tempo de correr até a porta,
tirar a chave sem fazer  barulho, correr  também  para  trás
da cortina, que foi o único lugar que lhe veio  a  cabeça, e
a porta se abriu, passos foram ouvidos e, logo  em  seguida,
a porta novamente trancada. Jú não conseguia ver quem  havia
entrado e, a esta altura,  nem  respirava,  e  nem  tampouco
poderia tremer de medo, pois seria descoberta,com o provável
movimento sincronizado da cortina com seu corpo.            
  __ AAhhh! Que dia! __ Era o tio Déco, se  espreguiçando  e
resmungando.                                                

.........

15 - As Dissimulações de Lili


Jú entrou em casa  e  todos  já  estavam  lá,  aparentemente 
tranquilos. Lili não estava na sala.
__ Oi, mãe, pai!
__ Oi, filha. Já jantou? __ perguntou sua mãe.
__ Já, na casa do Caio.
__ Foi incomodar a Tereza de novo.
__ Ah, mãe,eles convidaram e eu achei que vocês iam demorar.
__ Era só esquentar no microondas.
__ É, eu sei, mas não queria ficar sozinha. 
__ Chegamos agora. Sua irmã está no quarto dela.
__ E o que o médico falou?
__ Ele acha que pode ter sido algo que ela comeu, ou...
__ Ou o quê, mãe?
__ Ou algo que deram pra ela experimentar.
__ Como assim, mãe? 
Olga  olhou  para  Cristiano,  com   cara  de   preocupação, 
tentando pedir-lhe algum tipo de ajuda  para  a  continuação 
daquela  conversa.   Cristiano   resolveu  então  assumir  a 
explicação:
__ Filha, sua irmã  deve  ter  experimentado  algum  tipo de 
droga, segundo o médico. Ele só não conseguiu  definir  qual 
teria  sido,  pois  as reações de Lili não se encaixavam com 
nenhum tipo de droga que ele conhecia.
__ Mas será?
__ Infelizmente, essa é a verdade crua e nua.
__ Sua irmã esteve sob os efeitos de alguma droga.
__ E como ela está agora?
__ Acho que voltou ao normal. Vá  até  lá e veja se ela está 
bem.
Jú  aproveitou o pedido do pai e subiu até seu quarto. Abriu 
a porta e encontrou a irmã assistindo televisão.
__ Oi, Lili!
__ Oi.
__ Está melhor?
__ Hum, hum __ enquanto comia um pedaço de bolo.
__ O que você teve? 
__ Umas tonturas, acho.
__ Tonturas, é? __ Jú encarou-a com ar de reprovação.
__ É, tonturas.
__ E aquelas histórias de outra cidade, de prédios gigantes.
__ De onde você tirou isso?
__ Você mesma me contou.
__ Eu? __ com ar de espanto.
__ É, você. E eu até sei o que aconteceu com você.
__ Sabe?
__ Você fuçou nas coisas que pegamos do tio Déco, 
roubou um diário e alguns cristais, e passeou por outra 
dimensão.
__ Você está louca, é? De onde tirou essas 
histórias?
__ Lili, não tente me enganar. Você estava com o 
diário que eu vi.
__ Eu não sei do que está falando.
__ Não se faça de dissimulada. A mim você não 
engana!
__ Jú, me deixa em paz. Quero dormir, tive um dia 
difícil.
__ Vou ficar de olho em você. 
__ Vou apagar a luz e desligar a tv.
Lili desligou a tv com o controle e desligou a 
luz. Jú ficou no escuro e muito raivosa. Lili cortou a 
conversa e virou-se para dormir. Jú ia saindo do quarto 
mas ainda deixou sua última frase da noite:
__ Você precisa devolver as páginas que arrancou 
do diário. Sabemos que estão com você __ Lili nem se 
mexeu e Jú saiu do quarto.

.........

23 - Uma Viagem Turbulenta


 Caio e Déco percorreram o trajeto da praça da Sé 
à praça Ramos em menos de dez minutos. Antes de se 
dirigirem as escadarias do Municipal, entraram num 
boteco, pediram duas garrafas de água, abriram, pediram 
um saleiro, encheram a garrafa de sal e saíram. O 
funcionário não entendeu mas não disse nada contra. 
Déco saiu na frente e Caio o seguiu. Pararam bem diante 
do teatro e subiram alguns degraus. Eram quase seis da 
tarde e o movimento de pedestres era intenso que nem 
perceberiam o sumiço dos dois. Abriram suas garrafas, 
Déco pegou o saco plástico do bolso, retirou dois 
cristais brancos, deu um para Caio e colocou o seu na 
garrafa, Caio fez o mesmo. Esperaram alguns minutos, 
Déco deu a ordem:
__ Caio, beba e não se preocupe, apenas segure na 
minha mão.
Beberam, sentiram o formigamento e começaram a ver 
a imagem enevoada e embaçada. As escadarias do 
Municipal que podiam ser vistas, ainda que não muito 
nítidas, de repente, sumiram.
__ Caio, segure em mim. Alguma coisa mudou. A 
escadaria sumiu.
Outras imagens começaram a aparecer até que uma 
praça muito movimentada, cheia de barracas, como uma 
feira, surgiu diante deles, nítida e estática.
__ Caio, vamos!
Déco segurou firme na mão do sobrinho e 
caminharam. Surgiram num lugar que certamente não era o 
Municipal. Era sujo, escuro, cheio de gente mal vestida 
e barracos de todos os tamanhos que vendiam de tudo que 
se pode imaginar.
__ Tio, onde estamos?
__ Não sei ainda, Caio. Vamos manter a calma.
__ Mas, tio, aqui não é o Municipal.
__ Eu sei, Caio. Acho que caímos em outro lugar. 
Pelo menos a língua que falam é a mesma que a nossa. 
Vamos andar e descobrir alguma coisa.
Andaram um pouco e chegaram ao que parecia ser um 
ponto de ônibus e peruas. Na frente de cada veículo, 
uma placa indicava o destino. Andaram e foram lendo as 
placas até que começaram a se familiarizar com os 
nomes: Guarapiranga, João Dias, Borba Gato...
Déco parou e leu a placa bem acima de sua cabeça: 
Largo Treze de Maio.
__ Caio, viemos parar no largo Treze, em Santo 
Amaro. Acho que o safado do Valdez vendeu pra gente um 
cristal de péssima qualidade. Na volta ele me paga!
__ Um cristal estragado, tio?
__ Só pode ser isso! Isso nunca aconteceu antes. 
Deve ser o cristal! Mas agora isso não importa muito. 
Temos que sair daqui e chegar ao centro o mais rápido 
possível.
Déco, sem se importar muito com o que pensariam, 
começou a se informar com todos que passavam por ele:
__ Moço, como faço para chegar ao centro?
__ Centro, que centro?
__ Centro da cidade, rua Direita, XV de 
Novembro...
__ Pegue um ônibus até o aeroporto de Congonhas. 
Depois é com o senhor.
__ Não tem nenhum que vá direto?
O home deu risada e continuou a conversa:
__ Direto? Acho que não. Ta tirando uma da minha 
cara, é?
__ Tirando uma? Não, de forma alguma! Por que diz 
isso?
__ Não mora aqui, não?
__ Não, viemos de longe, acabamos de chegar.
__ Sei... __ o homem estava cismado com Déco, 
ainda crente que este caçoava dele.
__ Tá bom, quer brincar, então vamos brincar. Pega 
o helicóptero ali da esquina que chega ao centro 
rapidinho, só precisa desviar dos tiros dos guardas. 
O homem foi embora rindo dos dois, sem dizer mais 
nada.
__ Caio, o que eu disse de errado?
__ Não sei, tio, mas acho que é alguma coisa que é 
muito comum por aqui e que a gente não sabe.
__ Talvez. Vamos fazer o seguinte. Pegamos uma 
condução até o aeroporto e depois verificamos, nós 
mesmos, o que acontece por lá.
__ E como vamos tomar esses ônibus sem dinheiro?
__ Tenho algumas jóias comigo, que eram da sua 
avó, espero que sirvam pra alguma coisa.
Déco estranhou o lugar, pois do que se lembrava de 
suas antigas viagens, tudo era limpo, organizado, 
moderno, e o que via, não condizia com o que conhecera 
daquela São Paulo. Ficou receoso que pudesse estar em 
outra dimensão, diferente da que costumava estar. 
Lembrou do que Valdez disse sobre o desligamento das 
duas dimensões e temeu por si e por seu sobrinho, mas 
continuou.
Parou diante de uma perua que indicava placa para 
o aeroporto de Congonhas. Um homem negro, de bigodes e 
totalmente careca, aguardava ao lado do veículo:
__ Senhor, está indo pra Congonhas?
O homem pegou nos fios de seu bigode e virou-os 
levemente. Olhou para Déco e para Caio com certo 
desprezo e respondeu:
__ Daqui a meia hora.
__ Não dá pra ir agora?
__ Disse meia hora.
__ Quanto é?
__ Duas pratas por cabeça.
Déco tirou do bolso um anel de ouro e deu ao 
homem.
__ O que é isso? Anel... de ouro... não tenho 
troco pra isso.
__ Pode ficar com ele.
__ Ta me achando com cara de idiota, é? To falando 
que não tenho troco pra isso.
__ Fica com ele e leva a gente pra lá agora.
__ Negócio fechado, gente fina. Subam.
Os dois entraram sem entender o que realmente 
estava acontecendo. Déco ainda tinha mais alguns anéis 
no bolso e achou que valia o gasto. O negro saiu com 
sua perua e seguiu na direção do centro. O homem, 
percebendo que havia algo de diferente com os dois, 
tentou puxar conversa para ver se descobria algo mais:
__ Tão indo pra onde?
__ Centro, teatro Municipal.
__ Moram por lá?
__ Não, vamos assistir... a um concerto, é isso.
__ Sei. E tem autorização?
__ Autorização? Pra quê?
__ Pra que... __ o homem riu e ficou calado por 
uns instantes.

.........

Os guardas do castelo, já informados sobre o 
levante que se aproximava, estavam à postos para a 
defesa do grande castelo. Os guerreiros chegaram e 
pararam há uns cem metros da entrada do grande portão. 
Alemão, que aos poucos foi sendo aceito como o real 
líder daquele levante, tomou à frente da mutidão, subiu 
em cima de um carro que ali havia estacionado e iniciou 
seu discurso:
__ Hoje vamos acabar com a festa dos "bacanas"! 
Chega de vida boa para eles, chega de grana só para 
eles!
__ Chega! Chega! Chega!
Os urros dos seguidores foram ouvidos para dentro 
do grande muro e seus privilegiados moradores, agora já 
conhecedores, através de rádios e tevês, do que estava 
prestes à acontecer, começavam à sair de suas casas, na 
tentativa de encontrarem algum abrigo mais seguro. A 
cidade começava à se desesperar. Toda a força policial 
e parte do exército iniciava também sua mobilização. A 
guerra estava prestes à começar e, o "clone" de Caio, e 
Jú, aguardavam, sem saber o que fazer, em meio aos 
revoltosos.
Alemão, num gesto impensado e, diríamos, até 
heróico, pegou um pacote das mãos de outro rapaz, que 
estava logo ao seu lado, subiu em sua moto e saiu em 
direção ao grande portão. Os guardas, em estado máximo 
de alerta, prepararam suas armas e, ao sinal de um de 
seus superiores, começaram à atirar. Alemão segurava o 
pacote em seu colo e gritava:
__ Vou acabar com vocês! Vou acabar com vocês!
Os tiros vinham de várias direções e, como seria 
de se esperar, acertaram Alemão várias vezes. Sua moto 
estava em alta velocidade. Alemão caiu com seu corpo em 
cima do guidão e a moto continuou seguindo seu destino, 
em linha reta, na direção do grande portão, que bateu 
nele com muita força e, o pacote que carregava, na 
verdade, uma bomba de forte poder destruidor, causou 
uma grande explosão fazendo com que tudo fosse para o 
ares, inclusive o enorme portão, que veio abaixo de uma 
só vez. Uma grande bola de fogo se formou e, alguns 
minutos depois, pode-se ver o rombo que o suicida 
Alemão havia feito. Era possível avistar para dentro da 
muralha, que aparentemente havia sido vencida, apesar 
de os guardas não haverem parado com os tiros. A 
mutidão enfurecida, sem medir as consequencias que 
poderiam vir, avançaram feito feras desembestadas na 
direção do portão caído. Muitos caíram desfalecidos, 
mas outros tantos conseguiram entrar e, aos montes, 
lutavam com os poucos guardas que ali se encontravam. 
Foi nesse momento que Caio e Jú, aproveitando a parcial 
vitória dos invasores, passaram com a moto dele pelo 
portão arrebentado e seguiram em direção ao centro, já 
que Jú só tinha trinta minutos para chegar ao portal.
A confusão no interior da cidadela era grande. 
Motoqueiros, aos bandos, saqueavam o que viam pela 
frente. Moradores e pedestres eram vítimas fáceis, pois 
viviam num mundo supostamente seguro, e não se 
preocupavam com a violência, não viviam entrincheirados 
como os habitantes da outra São Paulo, pois achavam que 
suas vidas estariam sempre bem guardadas pelos serviços 
de segurança do estado.
Caio avançava velozmente com sua moto em direção 
ao centro da cidade. A avenida Vinte e Três de Maio era 
vencida com certa facilidade pois a confusão maior 
havia ficado para trás. Ju virou a cabeça e avistou que 
um grupo grande de motoqueiros vinham há cerca de 
oitocentos metros atrás deles. Faziam uma grande 
arruaça e iam batendo, esmurrando e atirando, com suas 
armas, nos poucos carros que cruzavam por eles. E, em 
pouco mais de cinco minutos, Caio e Ju chegaram ao vale 
do Anhangabaú. Caio ficou completamente paralisado 
diante do majestoso conjunto de prédios do vale, 
estacionou sua moto em frente ao destino final de Ju: 
as Três Torres de Cristal.


		  



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Biografia

Mistérios da XV de Novembro, o novo livro de Marcio

Jiló, um garoto em perigo

Agulhas, o primeiro livro

Jac


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