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Marcio Poletto





Mistérios da XV de Novembro, ilustrado por
Daniel Bueno , o novo livro de Marcio, pela editora Prumo


Pedrinho, o único que brecou Pelé......

   Pedrinho pegou um banquinho na cozinha, sem que sua irmã, 
Olga, percebesse. Carregou-o até o quintal e o colocou 
encostado ao muro da casa vizinha. Subiu no banco e ainda teve 
que levantar os pés, já que sua altura não passava dos um metro 
e cinquenta, mas conseguiu ver o que se passava do outro lado. 
Não avistou ninguém, então resolveu gritar:
   __ Moacir! Moacir!
   Instantes depois apareceu quem ele chamava, seu vizinho 
e amigo Moacir.
   __ Oi, Pedrinho!
   __ Vamos ver o São Paulo e Santos no Morumbi?
   __ Ué, vamos! mas como a gente vai?
   __ Com meu carro!
   __ Mas você agora tem carro?
   __ Comprei um fusquinha azul.
   __ E tem carteira de motorista?
   __ Peguei ontem!
   __ Ontem? Já tá tocando bem?
   __ Tocando?
   __ É, dirigindo.
   __ É, dá pro gasto.
   __ Ué, então vamos, vou levar o Silvinho, tudo bem?
   __ Claro, o Silvinho vai adorar!
   Silvinho era sobrinho do Moacir e seria a primeira vez 
que iria assistir a um jogo de futebol no Morumbi. Pedrinho 
e Moacir eram dois solteirões e moravam cada um com suas 
irmãs casadas e seus respectivos cunhados. Eram amigos mas 
nem sempre saíam juntos. Aquele seria o dia da estréia de 
Pedrinho no volante sem os instrutores da auto-escola e 
também o primeiro dia do fusquinha nas mãos dele. Pedrinho 
no volante, Moacir ao lado e Silvinho no banco de trás com 
uma bandeira novinha do São Paulo que sua mãe havia feito 
quando foi pela primeira vez no estádio, há dois domingos 
passados, no Pacaembú. Aquele dia ele ia ver o Pelé, ao 
vivo, pela primeira vez. Pedrinho virou a chave, engatou 
a primeira, soltou a embreagem e o carro morreu.
   __ Acho que esse carro está com problema __ reclamou 
Pedrinho.
   __ Você soltou o pedal da embreagem muito rápido.
   __ Será? Então vou tentar de novo..
   Na segunda tentativa, apesar dos solavancos, o carro 
iniciou a mais perigosa viagem de sua vida.
   Moacir segurava firme no puxador da porta e no 
"puta-que-o-pariu". O carro ainda morreu mais quatro vezes 
nos semáforos até chegar próximo ao palácio do Governo. 
Moacir permaneceu calado durante toda a perigosa viagem, 
e como não tinha carteira também, apesar de saber dirigir, 
teve que aguentar firme, com muita coragem, as proezas de 
Pedrinho no trânsito com seu fusquinha azul.
   Finalmente chegaram próximos ao estádio quando então 
passaram a procurar por um estacionamento, ou mesmo uma 
vaga na rua. Silvinho, que veio o tempo todo olhando para
trás, vendo o que se passava pelo vidro traseiro, de repente, 
gritou:
   __ O Pelé!
   Moacir, ao ouvir o grito do sobrinho, virou-se para saber 
o que se passava com o garoto e, ao virar a cabeça, avistou 
um carrão Mercedez que vinha logo atrás do fusquinha e trazia, 
nada mais, nada menos, que Pelé sentado no banco da frente, 
ao lado do motorista. Moacir confirmou as palavras de 
Silvinho emocionado:
   __ Mas é mesmo o Pelé!
   __ Pelé? Aonde? __ perguntou Pedrinho super curioso.
   __ Logo aí atrás num Mercedão __ respondeu Moacir.
   __ Mercedão?
   Pedrinho virou a cabeça quase do avesso para tentar ver 
Pelé, mas virou a direção ao mesmo tempo e o carro saiu da 
trajetória. Moacir, percebendo o perigo iminente, virou o 
volante para o outro lado e gritou com Pedrinho. O Mercedão 
também tentava se livrar do fusquinha, mas Pedrinho e agora 
também com Moacir ao volante, faziam o carro andar 
perigosamente em zigue-zague, Pedrinho puxava o volante 
para um lado e Moacir para o outro. Pedrinho então, 
apavorado com o descontrole do veículo, resolver pisar no 
freio com força:
   __ Iiiiiihhhhhh!
   O fusquinha parou, mas o Mercedão, não:
   __ Cabrum!
   O Mercedez de Pelé encheu a traseira do fusquinha de 
Pedrinho. Silvinho, que estava olhando tudo pelo vidro 
traseiro, com a batida, acabou por ser arremessado para 
trás do banco, dentro do pequeno porta-malas, também 
conhecido por “chiqueirinho”.
   __ Puta-que-o-pariu! __ gritou Moacir.
   __ Ai, meu Deus! __ lamentou Pedrinho.
   __ Buáaaa! __ chorou Silvinho!
   O estrago no fusquinha foi grande, pois o motor travou. No 
Mercedez, só um arranhão no pára-choque. O motorista de Pelé 
tentou se desvencilhar e sumir rapidamente dali, mas os carros
haviam se enganchado. O Rei, já preocupado com provável assédio, 
tentava se esconder, mas a mutidão que caminhava nas imediações 
do estádio logo percebeu sua presença e a confusão logo se 
formou. Muitos torcedores se aproximaram e envolveram os dois 
carros. Santistas, enfurecidos ao verem que os ocupantes do 
fusca eram são-paulinos, queriam partir para o linchamento:
   __ Esses caras tentaram quebrar o Pelé! Vamos linchar!
   A coisa ia pegar fogo quando o próprio Rei Pelé resolveu 
interceder. Abriu a porta do Merdedão e foi logo pedindo calma:
   __ Calma, gente! Não vamos partir pra violência. Tá certo 
que esses “beques” aí do fusquinha tentaram me quebrar, 
entende, mas nem por isso vamos partir para o linchamento, 
entende?
   A multidão se acalmou e abriu espaço para o Rei, que caminhou 
para perto do fusquinha. Chegou próximo à janela de Pedrinho, 
que estava fechada por causa da multidão enfurecida. O Rei 
fez sinal para que abaixasse o vidro.
   __ Oi, seu Pelé! Desculpe minha barberagem, é que tirei 
carta faz pouco tempo.
   Silvinho ainda choramingava.
   __ Tudo bem com vocês? E o menino?
   __ Tá tudo bem, foi só o susto!
   __ E o carro? Tá andando?
   __ O motor não pega, acho que travou.
   __ Péra aí.
   O Rei chamou por seu motorista.
   __ Joel, cuida do Fusca deles.
   __ Tudo bem, patrão.
   Os três saíram do Fusca e deixaram que Joel cuidasse do 
problema. Alguns torcedores ajudaram a desenroscar os carros 
e empurraram o Fusca para próximo do meio-fio, quando o 
Rei falou:
   __ Vocês vêm comigo!
   __ Com o senhor, seu Pelé? __ perguntou perplexo, Pedrinho.
   __ É, deixa que o Joel cuida do carro; depois vocês pegam 
com ele.
   Pedrinho e Moacir sentaram-se no banco de trás e Silvinho 
foi na frente com o Rei, que deu uma de motorista. A multidão 
estranhou mas não discordou da atitude do Rei. Silvinho tentou 
abanar sua bandeira, mas o Rei não deixou:
   __ Se fosse uma do Santos, ainda vai, mas essa aí você 
usa só quando entrar no estádio, entende?
   Moacir, envergonhado, bronqueou com o sobrinho:
   __ Enrola essa bandeira, Silvinho!
   __ Não precisa brigar com o garoto, tudo bem __ Pelé soltou 
uma gargalhada.
   Pelé entrou com o carrão dentro do estádio e pediu que 
arrumassem um bom lugar para os três. Cumprimentou os dois 
solteirões e abraçou Silvinho apertado:
   __ Se fosse Santista, seria o garoto mais legal do mundo!
   Deixou os três, ainda perplexos, que seguiram para seus 
lugares de honra, num dia inspirado do Rei que marcou um golaço 
e ainda deu passe para outros dois gols na vitória do peixe 
por três a dois sobre o São Paulo. Silvinho, durante o jogo, 
abanava a bandeira do São Paulo toda vez que Pelé pegava 
na bola. Pedrinho e Moacir só bronquearam quando o garoto 
ameaçou levantar a bandeira no gol do Pelé. “Aí também 
já era demais”.
   Estavam saindo do estádio, e ainda tinham que ir atrás 
do fusquinha batido, que estava sendo guardado por dois 
policiais, quando o pequeno Silvinho surpreendeu os 
dois com uma frase desconsertante:
   __ Pedrinho, sabia que hoje você foi o único que 
conseguiu brecar o Pelé? 
			



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Biografia

Mistérios da XV de Novembro, o novo livro de Marcio

Jiló, um garoto em perigo

As andanças de Marcio e Jiló

O que dizem por aí sobre o Jiló

Agulhas, o primeiro livro

Jac


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