Pedrinho pegou um banquinho na cozinha, sem que sua irmã, Olga, percebesse. Carregou-o até o quintal e o colocou encostado ao muro da casa vizinha. Subiu no banco e ainda teve que levantar os pés, já que sua altura não passava dos um metro e cinquenta, mas conseguiu ver o que se passava do outro lado. Não avistou ninguém, então resolveu gritar: __ Moacir! Moacir! Instantes depois apareceu quem ele chamava, seu vizinho e amigo Moacir. __ Oi, Pedrinho! __ Vamos ver o São Paulo e Santos no Morumbi? __ Ué, vamos! mas como a gente vai? __ Com meu carro! __ Mas você agora tem carro? __ Comprei um fusquinha azul. __ E tem carteira de motorista? __ Peguei ontem! __ Ontem? Já tá tocando bem? __ Tocando? __ É, dirigindo. __ É, dá pro gasto. __ Ué, então vamos, vou levar o Silvinho, tudo bem? __ Claro, o Silvinho vai adorar! Silvinho era sobrinho do Moacir e seria a primeira vez que iria assistir a um jogo de futebol no Morumbi. Pedrinho e Moacir eram dois solteirões e moravam cada um com suas irmãs casadas e seus respectivos cunhados. Eram amigos mas nem sempre saíam juntos. Aquele seria o dia da estréia de Pedrinho no volante sem os instrutores da auto-escola e também o primeiro dia do fusquinha nas mãos dele. Pedrinho no volante, Moacir ao lado e Silvinho no banco de trás com uma bandeira novinha do São Paulo que sua mãe havia feito quando foi pela primeira vez no estádio, há dois domingos passados, no Pacaembú. Aquele dia ele ia ver o Pelé, ao vivo, pela primeira vez. Pedrinho virou a chave, engatou a primeira, soltou a embreagem e o carro morreu. __ Acho que esse carro está com problema __ reclamou Pedrinho. __ Você soltou o pedal da embreagem muito rápido. __ Será? Então vou tentar de novo.. Na segunda tentativa, apesar dos solavancos, o carro iniciou a mais perigosa viagem de sua vida. Moacir segurava firme no puxador da porta e no "puta-que-o-pariu". O carro ainda morreu mais quatro vezes nos semáforos até chegar próximo ao palácio do Governo. Moacir permaneceu calado durante toda a perigosa viagem, e como não tinha carteira também, apesar de saber dirigir, teve que aguentar firme, com muita coragem, as proezas de Pedrinho no trânsito com seu fusquinha azul. Finalmente chegaram próximos ao estádio quando então passaram a procurar por um estacionamento, ou mesmo uma vaga na rua. Silvinho, que veio o tempo todo olhando para trás, vendo o que se passava pelo vidro traseiro, de repente, gritou: __ O Pelé! Moacir, ao ouvir o grito do sobrinho, virou-se para saber o que se passava com o garoto e, ao virar a cabeça, avistou um carrão Mercedez que vinha logo atrás do fusquinha e trazia, nada mais, nada menos, que Pelé sentado no banco da frente, ao lado do motorista. Moacir confirmou as palavras de Silvinho emocionado: __ Mas é mesmo o Pelé! __ Pelé? Aonde? __ perguntou Pedrinho super curioso. __ Logo aí atrás num Mercedão __ respondeu Moacir. __ Mercedão? Pedrinho virou a cabeça quase do avesso para tentar ver Pelé, mas virou a direção ao mesmo tempo e o carro saiu da trajetória. Moacir, percebendo o perigo iminente, virou o volante para o outro lado e gritou com Pedrinho. O Mercedão também tentava se livrar do fusquinha, mas Pedrinho e agora também com Moacir ao volante, faziam o carro andar perigosamente em zigue-zague, Pedrinho puxava o volante para um lado e Moacir para o outro. Pedrinho então, apavorado com o descontrole do veículo, resolver pisar no freio com força: __ Iiiiiihhhhhh! O fusquinha parou, mas o Mercedão, não: __ Cabrum! O Mercedez de Pelé encheu a traseira do fusquinha de Pedrinho. Silvinho, que estava olhando tudo pelo vidro traseiro, com a batida, acabou por ser arremessado para trás do banco, dentro do pequeno porta-malas, também conhecido por “chiqueirinho”. __ Puta-que-o-pariu! __ gritou Moacir. __ Ai, meu Deus! __ lamentou Pedrinho. __ Buáaaa! __ chorou Silvinho! O estrago no fusquinha foi grande, pois o motor travou. No Mercedez, só um arranhão no pára-choque. O motorista de Pelé tentou se desvencilhar e sumir rapidamente dali, mas os carros haviam se enganchado. O Rei, já preocupado com provável assédio, tentava se esconder, mas a mutidão que caminhava nas imediações do estádio logo percebeu sua presença e a confusão logo se formou. Muitos torcedores se aproximaram e envolveram os dois carros. Santistas, enfurecidos ao verem que os ocupantes do fusca eram são-paulinos, queriam partir para o linchamento: __ Esses caras tentaram quebrar o Pelé! Vamos linchar! A coisa ia pegar fogo quando o próprio Rei Pelé resolveu interceder. Abriu a porta do Merdedão e foi logo pedindo calma: __ Calma, gente! Não vamos partir pra violência. Tá certo que esses “beques” aí do fusquinha tentaram me quebrar, entende, mas nem por isso vamos partir para o linchamento, entende? A multidão se acalmou e abriu espaço para o Rei, que caminhou para perto do fusquinha. Chegou próximo à janela de Pedrinho, que estava fechada por causa da multidão enfurecida. O Rei fez sinal para que abaixasse o vidro. __ Oi, seu Pelé! Desculpe minha barberagem, é que tirei carta faz pouco tempo. Silvinho ainda choramingava. __ Tudo bem com vocês? E o menino? __ Tá tudo bem, foi só o susto! __ E o carro? Tá andando? __ O motor não pega, acho que travou. __ Péra aí. O Rei chamou por seu motorista. __ Joel, cuida do Fusca deles. __ Tudo bem, patrão. Os três saíram do Fusca e deixaram que Joel cuidasse do problema. Alguns torcedores ajudaram a desenroscar os carros e empurraram o Fusca para próximo do meio-fio, quando o Rei falou: __ Vocês vêm comigo! __ Com o senhor, seu Pelé? __ perguntou perplexo, Pedrinho. __ É, deixa que o Joel cuida do carro; depois vocês pegam com ele. Pedrinho e Moacir sentaram-se no banco de trás e Silvinho foi na frente com o Rei, que deu uma de motorista. A multidão estranhou mas não discordou da atitude do Rei. Silvinho tentou abanar sua bandeira, mas o Rei não deixou: __ Se fosse uma do Santos, ainda vai, mas essa aí você usa só quando entrar no estádio, entende? Moacir, envergonhado, bronqueou com o sobrinho: __ Enrola essa bandeira, Silvinho! __ Não precisa brigar com o garoto, tudo bem __ Pelé soltou uma gargalhada. Pelé entrou com o carrão dentro do estádio e pediu que arrumassem um bom lugar para os três. Cumprimentou os dois solteirões e abraçou Silvinho apertado: __ Se fosse Santista, seria o garoto mais legal do mundo! Deixou os três, ainda perplexos, que seguiram para seus lugares de honra, num dia inspirado do Rei que marcou um golaço e ainda deu passe para outros dois gols na vitória do peixe por três a dois sobre o São Paulo. Silvinho, durante o jogo, abanava a bandeira do São Paulo toda vez que Pelé pegava na bola. Pedrinho e Moacir só bronquearam quando o garoto ameaçou levantar a bandeira no gol do Pelé. “Aí também já era demais”. Estavam saindo do estádio, e ainda tinham que ir atrás do fusquinha batido, que estava sendo guardado por dois policiais, quando o pequeno Silvinho surpreendeu os dois com uma frase desconsertante: __ Pedrinho, sabia que hoje você foi o único que conseguiu brecar o Pelé?